domingo, 3 de dezembro de 2017

COBRA SEM VENENO


                       Sinto ojeriza e medo de animais peçonhentos. Deus me livre de cobra, aranha, escorpião, lacraia, taturana, vespas, marimbondo e outros tantos que perambulam por aí. Quando banhava no córrego, que ladeava minha terra natal ou caminhava pelo mato, do sítio do meu avô paterno, no bairro Bondade, tinha por regra, medir cada passo. “Cautela e caldo de galinha, não faz mal a ninguém”, dizia minha avó à beira do fogão à lenha, cozendo um mungunzá.

                                   Foi ouvindo conselhos, que aprendi a separar o joio do trigo. A natureza ensina como se lidar com a vida, basta observar com atenção e carinho os seus sinais. Como pode um pássaro sair voando por aí e retornar sem aparelho de precisão? Ainda fedelho, procurava observar as coisas à minha volta, enquanto as crianças da minha idade corriam para lá e para cá, sem se preocuparem com nada. Aquela minha inquietação, ajudou-me a compreender o mundo á minha volta.

                                   Dentre os animais peçonhentos, havia aqueles com e sem veneno. A cobra jararacuçu, a aranha viúva-negra e o escorpião amarelo estavam entre os mais venenosos e, por isso, tinham que se ter cautela redobrada. Já a cobra d´água é considerada inofensiva, sem veneno. Essa quando se sente incomodada, ao invés de atacar, foge pela água do riacho. Por ter nascido no mato e por me considerar um capiau, aprendi a lidar com toda espécie de bicho, seja ele peçonhento ou não.   

                                   Quando por força do destino, mudei-me para a cidade grande, em busca de melhoria de vida, levei comigo o costume de fazer leitura simples do que acontecia ao meu derredor. Ao lidar com o corre-corre do dia-a-dia e com vaidade das pessoas, não me foi difícil interagir com o desconhecido. Na cidade grande, a ganância e o orgulho dos homens, tornaram-se mais vorazes do que os do mato. Mas por saber diferenciar o animal peçonhento do venenoso, sobrevivi.

                                   A vaidade, a ganância, a arrogância, o orgulho, a prepotência, ira, luxuria, gula, soberba, a inveja, dentre outros, são venenos, cujo antídoto ainda não foi descoberto pelos cientistas do mundo e nem mesmo do Instituto Butantã. Percebi que o homem, quando investido de um cargo e, em especial, os de autoridade pública, assemelham-se aos animais peçonhentos e venenosos. Usam e abusam do poder, por isso, humilham, maltratam, vilipendiam, como se os títulos honoríficos fosses eternos. Acham-se cobras com veneno. Ledo engano!

                                   Alguns chegam ao absurdo, quando numa contenda pessoal, querendo valer-se do cargo, como se fosse colete à prova de bala, dizem: “O senhor sabe com quem está falando?”. É certo que tudo passa na vida, como vai à chuva e vem o sol, assim também lá se vão os títulos.  No ataúde não se vão propriedades terrenas e, muito menos, títulos e insígnias adquiridas, muitas vezes, sem merecimento. Na realidade, ali só cabe um corpo inerte, cujo destino primordial e ser alimento de vermes.

                                   Ao deparar-me com situações dessa natureza, reporto-me a minha vida campesina, onde, a todo o momento, lidava com a cobra jararacuçu e a cobra d´água. Embora sentisse ojeriza, eu as respeitava. Isso porque elas sabiam se comportar, cada uma no seu lugar. Ao aposentar-se, a autoridade pública, volta a ser uma pessoa comum. Por isso, deve urgentemente, recolher-se a sua insignificância. Querer ainda se prevalecer do cargo, do diploma ou título, já pendurado no quadro do esquecimento é, antes do tudo, uma imbecilidade sem tamanho.

                                   Quando investido do cargo, fez e aconteceu, mas, agora, ao pendurar a chuteira, não faz mal para mais ninguém. E se porventura, do alto de sua arrogância, me perguntar: “O senhor sabe com quem está falando?”, não titubearei em responder: “Estou falando com uma COBRA SEM VENENO!”. Cobra sem veneno, não faz mal para ninguém.

 

Peruíbe SP, 03 de dezembro de 2017.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

VARA DA INFÂNCIA


                           Não há como falar dos tempos de outrora, sem reportar à minha terra natal: Guaimbê SP. Ali foi o berço sagrado da minha infância e nascedouro da formação moral do homem que sou hoje. Foi ali que bebi as primeiras gotas do saber e me banhei nas águas cristalinas da humildade. Os primeiros passos desajeitados mostraram-me o caminho do amanhã e desenharam um mundo real, o qual enfrentaria num tempo não muito distante.

                                   No banco do Grupo Escolar “José Belmiro Rocha”, que fica defronte a “Cooperativa Central”, rabisquei desconcertante, as primeiras letras do alfabeto, tendo como orientação a cartilha “Caminho Suave”, da autora e professora Branca Alves de Lima. Depois que tomei gosto pela letra, não parei mais. Desembestei a escrever coisas com e sem nexo. Enveredei pelos caminhos da literatura. Deu no que deu.

                                   Costumo divagar, quando começo a escrever e contar histórias. Creio que os assíduos leitores, já perceberam isso. Mas reportando aos tempos de outrora, lembro com saudades das traquinagens de infância. Peraltices sem maldades e longas histórias contadas pelos avós, povoam doces lembranças de um tempo que se foi. Bonecas de espiga de milho e carrinhos de carretel, entalhados na madeira, eram retratos de uma infância humilde.

                                   Não quero nem falar do meu primeiro amor platônico, que nutria pela filha do gerente de um banco financeiro. E assim, a vida bucólica e singela foi passando por mim, sem que eu percebesse. Cresci junto com meus irmãos e primos, sempre afagado pelo carinho dos meus pais e avós. Foram meus patriarcas que me ensinaram os princípios morais e éticos. Aqueles traços contidos no sangue deles seguiram-me a vida inteira. O maior legado que me deixaram, chama-se educação.

                                   Olha que ao longo dos anos, tenho enfrentado todos os dissabores da vida. Numa luta desumana, tenho matado um leão por dia, para sobreviver. Passei para minha linhagem, os ensinamentos de meus antepassados. O caminho suave da cartilha, lá do banco da escola, assopra aos meus ouvidos, dizendo que tudo que aprendi na tenra idade e nas ruas descalças de minha terra natal, valeu a pena.

                                   Ainda buscando nas imagens esbranquiçadas da minha infância, recordações passadas, lembro-me das noites enluaradas que ficávamos brincando na calçada. As brincadeiras aconteciam sempre sob a vigilância de nossos pais ou avós. Não distanciávamos dali, porque tremíamos de medo da perua (kombi) do Juizado de Menores. Por isso, não podíamos passar das dez horas da noite. Se extrapolássemos o horário, éramos recolhidos e só voltávamos para casa, quando os pais iam buscar e após levarmos um sermão do Comissário (de menores).

                                   Sem falar das sovas, quando fazíamos traquinagens ou desrespeitávamos as pessoas mais velhas do que nós. Se arrumássemos brigas com os irmãos ou colegas e chegássemos em casa chorando, a sova era dobrada. Bilhete escolar, relatando indisciplina, era sova na certa. Entre uma sova e outra, aprendemos a respeitar e ser respeitados. Nunca vi uma criança gritar com os pais ou dizer que iria à delegacia de polícia prestar queixa, em razão da surra recebida. Quando se excedia na correção, nada que uma salmoura não resolvesse.

                                   Meus pais apanhavam uma vara de margoso ou de marmelo e a surra transcorria num ritual sagrado de correção. Entre um soluço e outro, ouvíamos nossos pais discorrerem o motivo da sova. Ao término, tínhamos que nos comprometer a não repetir a transgressão. É bíblico: “Educa a criança no caminho em que deve andar, e, ainda, até quando envelhecer, não se desviará dele” – Provérbios 22:6. A Bíblia segue dizendo: “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe” – Provérbios 29:15

                                   É certo que naquele tempo, não havia viciados e aviões do tráfico, alienados da internet, agressores de pais e irmãos, homicidas infantis, analfabetos prematuros, grávidas antes da puberdade. A televisão ainda não infectava os lares, com toda sorte de lixo informativo. Tempos áureos em que a família, a escola e a religião, eram o tripé que sustentava uma sociedade humana e igualitária. Tempos que não voltam mais. Hoje, o progresso e a tecnologia, criam jovens alienados, que vagam pelo mundo, feitos zumbis.

                                   Quando reporto à vida bucólica e singela da minha terra natal, lembro com saudade da VARA DA INFÂNCIA, que com seu jeito peculiar, ensinou-me a jurisprudência do amor, da educação e da obediência.

 
Peruíbe SP, 28 de novembro de 2017

terça-feira, 21 de novembro de 2017

CRIME DE LESA-PÁTRIA


                                    Não gosto de me gamba, ou melhor, de me gabar. De vez em quando, adoro receber um elogio. Quando vem do fundo do coração, tem um sabor especial. O elogio é filho primogênito de gratidão. Ele nos estimula a continuar na luta daquilo que almejamos. Só não aprecio, quando vem banhado de falsidade. Não tem valia e nada acrescenta no meu desenvolvimento espiritual.

                                   Ultimamente, tenho observado que o monarca do “Reino Caiçara” tem sido coroado com toda sorte de elogio por parte dos súditos e, em especial, dos tabloides e de alguns blogueiros. É certo que, desde que ascendeu ao trono, ele tem se esforçado para melhorar a infraestrutura e a imagem do reino. Sejamos justo, se compararmos com as administrações anteriores, houve uma acentuada melhora.

                                   Embelezar as ruas das províncias, para encantar os olhos dos visitantes, pode fazer parte da mudança, mas não é tudo. É gritante atender outras necessidades urgentes, tais como, saúde, educação, habitação, segurança, meio ambiente, turismo, agricultura, etc. e tal. É preciso ter olhar de lince, para detectar os desejos do povo. Por isso, os ministros e os membros do primeiro escalão, devem ser escolhidos a dedo pelo rei.

                                   Tenho notado que após a posse, o rei trouxe consigo, alguns vícios pecaminosos e abomináveis de seus antecessores. Sobre isso, já tenho dissertado em algumas peças de arquitetura anterior. Vossa Majestade começa a sentir o sabor adocicado que vem dos lábios de bajuladores e de crápulas, travestidos de benfeitores. Até hoje, o monarca não recebeu, na sala do trono, este súdito, para uma conversa informal, fora da agenda, como acontece em outros reinos.

                                   Mas o que me chama a atenção é o fato de o Rei Fabrício divulgar, através da imprensa marrom, que foi de pinico na mão, pedir dinheiro para outros reis. Disse que o dinheiro era para investir na infraestrutura das províncias. Não seria mais fácil ele recorrer a Suprema Corte, a fim de processar os ladrões dos reinos anteriores? Além de levá-los aos cárceres da masmorra, também repatriar todas as patacas surrupiadas dos cofres públicos.

                                   O Primeiro Ministro, do governo daquela rainha insana e incompetente, desfila garbosamente por ai, ostentando o luxo e rindo do povo, como se nada tivesse acontecido. Outro dia, encontrei um ex-candidato ao reino, nascido na Província do Caraguava, o qual se portava como um vassalo comum entre o povo. Lembro-me que, quando ele postulava a coroa, juntou-se à pior corja da sociedade caiçarense. Mafiosos, policiais corruptos e comerciantes desonestos, faziam parte da trupe, por ele comandada. 

                                   Não adianta buscarmos alento no Parlamento (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns), porque está infectada pelo vírus da desonestidade e acometida de uma doença endêmica, chamada corrupção. E ficamos nós aqui, peça de manobra, lamentando pelos cantos da vida, a falta de justiça. Há comentários pelas ruas e pelos becos das províncias, que, a qualquer momento, o exército real, tomará o poder e colocará a monarquia no eixo. Já há um clamor público, porque ninguém aguenta mais tanto desmando.

                                   Vossa Majestade, o Rei Fabrício, deve urgentemente ajuizar uma ação civil pública contra todos aqueles que surrupiaram os cofres públicos, deixando o povo jogado ao revel da sorte e naufragado no lodo da miséria. Por ser um nobre causídico, o Monarca sabe que todos eles cometeram o “Crime de Lesa-Pátria”. Eles devem ser julgados em praça pública e antes de subirem ao cadafalso, a fim de serem guilhotinados, devolverem o que da nação, fora tirado.

                                   Devo apenas lembrar a Vossa Majestade que, não tem por costume, receber pessoa do povo, assim como eu, a seguinte assertiva: “Justiça tardia é justiça nenhuma”.

 
Peruíbe SP, 20 de novembro de 2017

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O PARLAMENTO E AS PENOSAS


                           Toda vez que me escondo, eu me acho. Por isso, não adianta enclausurar-me dentro do meu mundo e, assim pensando, melhor sair por ai, andar por todas as províncias do “Reino Caiçara”. E quando assim faço, as pessoas acenam-me e me fazem compreender que sou muito conhecido e que estou inserido no cotidiano de um povo tão humilde e sofrido. Amo demais este lugar e as pessoas que nele habitam, por isso, recebo como gratidão, o reconhecimento de cada um deles.

                                   Outro dia, sentado no banco de uma praça qualquer, a fim de contemplar a natureza e o caminhar descompassados de pessoas escravizadas pelos afazeres do dia a dia, pude observar um grupo conversando próximo de mim. No calor das discussões, os interlocutores queixavam-se dos serviços públicos. O descaso com a saúde, transporte, segurança, educação, habitação, ruas descalças, inundações, estavam entre os assuntos dissertados. Não faltavam adjetivos depreciativos ao Rei Fabrício e aos membros do Parlamento (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns). Até a Suprema Corte era lembrada.

                                   Por algum momento, quis aderir-me ao grupo; mas, depois, preferi ficar onde estava e permanecer como observador. É certo que minhas caminhadas pelo reino, sempre renderam grandes momentos e histórias intermináveis. O cotidiano do reino, sempre nos agracia com fatos trágicos ou pitorescos. Lá distante, num casa de pau a pique, uma música sertaneja, tocava chorosamente, num rádio “Invicto”. Ora meus ouvidos se atinham a musica, ora ao debate caloroso do grupo.

                                   De repente, um dos mais afoitos, durante aquela tertúlia, esbravejou: “Como pode! Meia dúzia de políticos meteram a mão na burra do reino, saquearam algumas patadas e viajarem para o “Porto das Penosas”. Um dos interlocutores, indagou: “Foram fazer o que lá?”. Intercedeu um terceiro, ao que parece, mais informado: “Como o Monarca pretende instalar uma granja e um abatedouro de galinhas aqui no reino, para consumo interno e, também, para exportação, foram buscar informação e experiência, sobre o empreendimento, num reino distante”.

                                   Como no meio do grupo, havia um radical, de língua afiada, já foi apimentando o debate: “Nada disso. Usaram o tal projeto da granja, como pano de fundo, pois, na verdade, foram passar férias naquele lugar paradisíaco. Comenta-se que levaram a família a tiracolo. Por que não levaram um avicultor?”. Concordo plenamente com o radical do grupo. Por que não se investir nas necessidades urgente do reino? As províncias estão abandonadas e carentes de toda infraestrutura. O povo já morre de fome, imagina as galinhas.

                                   Uma plebeia revoltada impetrou uma ação civil pública, junto a Suprema Corte, tentando impedir a viagem, mas, de nada adiantou. É certo que a lei só é aplicada contra os pobres e desvalidos. O que impera é a farra do boi, quando se fala do erário público, Assim foi no reino anterior, quando, quem governava era uma rainha louca e insana. O primeiro ministro daquele governo saqueou a monarquia e nada aconteceu. Hoje ele goza de uma ostentação e escarneia os plebeus e os vassalos, a quem, um dia ele governou. É a chamada santa impunidade, que muitos veneram.

                                   Agora, os membros do Parlamento, disfarçados de representantes do povo, estão usufruindo das mordomias, que o cargo lhes proporciona, deliciando-se nas praias e nos resort de “Porto das Penosas”. Enquanto isso, o povo – massa de manobra -, comem o pão que o diabo amassou, para sobrevierem. Assim caminha a humanidade, abraçada com a desumanidade de quem as governa. O povo, ora o povo!

                                   Os parlamentares sacrificam as penosas, para matarem suas fomes e matam o povo, para saciarem suas ganâncias. Na realidade, eles não têm pena, nem mesmo de quem tem pena.

 

Peruíbe SP, 31 de outubro de 2017.

domingo, 29 de outubro de 2017

O REINO EM ALVOROÇO


                      Ao fazer minha caminhada matinal, pelas ladeiras íngremes do reino, com vistas a diminuir a pança e o stress, deparei-me com um povo em alvoroço. Notei um misto de pânico e de curiosidade, nos olhos daqueles que buscavam saber o que ocorrera naquela noite fatídica, nos cafundós do “Reino Caiçara”. Enquanto o mundo girava desgovernado à minha volta, eu continuava naquela caminhada, descompromissada com tudo e com todos.

                                   Acima dos arranha-céus e das montanhas, sobrevoavam aviões de caça e helicópteros, das Forças Armadas. Navios sondas e mergulhadores treinados vasculhavam cada centímetro cubico de água doce e salgada. Soldados e cães farejadores rastreavam incansavelmente as ruas e vielas, além das matas fechadas, que circundavam o Palácio Real. Naquele momento, não havia sido decretado o “toque de recolher”, mas não tardaria.

                                   Não bastasse aquela operação de guerra, notei a presença de câmeras de televisão de todas as agências do mundo. Correspondentes dos jornais internacionais, também se faziam presentes. Satélites espiões vigiavam cada movimento das pessoas e de objetos estranhos, que transitavam pelos condados e províncias. Não esperava que aquela caminhada matutina, rendesse tantas observações e futuras histórias.

                                   Agentes secretos, disfarçados de pessoas comuns, infiltravam-se nos botecos, praças, puteiros, portos de pesca, lugares de jogatinas, barbearias e toda sorte de lugares, onde havia aglomerações de pessoas. Tinham por missão, obter informações sigilosas, com vista a desvendarem o que ocorrera com a mais alta autoridade da nação, ou seja, Vossa Majestade, o Rei Fabrício. Era uma questão de honra, resolver aquele mistério, em poucas horas. Afinal de contas, os olhos do mundo, estavam voltados para o “Reino Caiçara”.

                                   A monarquia acordara fragilizada e, por conseguinte, o reino clamava por uma solução urgente. Busquei, com as cautelas de estilo, saber o que ocorrera. Alguém do povo, de forma muito discreta, temendo represálias e de ser taxado como conspirador, confabulou-me que vossa majestade desaparecera, no silêncio emudecido da madrugada. Em razão disso e, por haver parcas notícias, especulavam que fora vítima de emboscada. Uns diziam que abdicou solitariamente e buscou asilo em reino vizinho. Outros diziam que fora sequestrado e morto por desafetos intra-palacianos.

                                   A verdade era que, naquele momento trágico, o reino encontrava-se acéfalo. O que fazer? Nem mesmo o Parlamento (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns), sabia a que rumo tomar. A todo instante, os maiores juristas e a Suprema Corte, reuniam-se às portas fechadas, para discutirem secretamente, que atitudes tomariam, na ausência do monarca. Estaria o Rei Fabrício, escondido na casa de uma concubina e, por ela, protegido entre os seios fartos da mesma? Por ter ascendido ao trono recentemente, não gozava de grandes inimigos internos, por isso, a palavra assassinato não ganhara força. Mas os súditos e a imprensa internacional exigiam respostas urgentes.

                                   Mas enquanto o reino estava em alvoroço e o mundo girava, eu continuava a minha caminhada, alheio a tudo aquilo. Lembram que eu disse que caminhava para diminuir a pança e o stress? Pois é! Se me desviasse do propósito inicial, de nada adiantará levantar cedo e caminhar, não é mesmo? Embora o mundo acontecesse à minha volta, eu procurava ignorar tudo aquilo. Ou pelo menos tentava.

                                   De repente, um fidalgo trouxera uma notícia bombástica, obtida através de um capiau, morador lá dos cafundós do reino. Tamanha algazarra se formou em torno do fidalgo. Agentes secretos e de segurança, repórteres de televisão, rádio e jornal do mundo inteiro, súditos, vassalos, asseclas e toda sorte de pessoa, queriam ouvir, ao vivo e a cores, o que ocorrera com o rei.

                                   Disse o mensageiro da boa nova: “Na madrugada de hoje, exatamente às três horas, na Província de São João Batista, o Rei Fabrício fora abduzido por seres estranhos e transportado em um disco voador. Dali fora conduzido para Varginha (capital dos extraterrestres), onde será minuciosamente estudado em laboratório interplanetário”. 

                                   O Rei Fabrício tinha atitudes estranhas, coisas do outro mundo e precisava ser estudado com muito carinho e esmero”, disse um dos pilotos da nave, ao capiau. E como o capiau nada entendia de reino e nem de governo, apenas se ateve ao brilho reluzente daquela nave, quando chegou e quando partiu. Não perguntou o nome dos tripulantes e nem os convidou para um dedinho de prosa. A bem da verdade, temeu aproximar-se daquele troço estranho.

                                   O rei não abdicou, foi abduzido. Aninharam-se, no ponto de pouso e decolagem, os ufólogos, ecólogos, achólogos e aproveitadores da ignorância e da inocência humana. O lugar de onde ele partiu, virou ponto turístico e, não tardaria, para ser transformado em lugar santificado, pelos devotos de São Fabrício. Credo em cruz!

                                   Assim terminou a minha caminhada e as especulações de quem, assim como eu, não tinha o que fazer na vida. Acabou a história. The End.

 

Peruíbe SP, 26 de outubro de 2017.

 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O NOTÍVAGO


                                    Sabe o que é acordar de madruga e ver o sono se esvair pelos dedos? Não se ouve o estrilar do grilo, o coaxar do sapo martelo e, muito menos, o piar da coruja na cumeeira da casa velha. Nada de som e de luz... um vazio imenso, apenas. Os casais apaixonados acordam de repente, na madrugada do leito, para fazerem amor. Mas eu, desperto tão cedo, no vazio do quarto, para pensar na vida e falar de mim mesmo. Seriam coisas da idade ou perturbação da mente? Não sei!

                                   No silêncio, que me cerca, busco alento na literatura e nos rabiscos do papel. Nessa arte solitária, procuro externar meus pensamentos e sentimentos perdidos no tempo. Lembro-me do meu pai e dos meus avós que se foram. Recordo com saudades da minha infância em Guaimbê SP, correndo pelas suas ruas descalças, sem compromisso com a vida. Como na película de um filme antigo, vejo a vida passar pela minha memória, desgastada pelo tempo. Por falar nisso, quanto tempo me resta? Sei lá!

                                   Amigos que se foram, antes do combinado, sem me avisar. Romances desfeitos, por coisas banais. Os filhos que, um dia, nasceram pela graça de Deus. Viagens internacionais, que não aconteceram, mas que se materializaram nos projetos do filho empreendedor. As fotos amareladas no álbum de família demonstram que o tempo é ingrato e não perdoa. Carcomido pela vida, o corpo dá sinais de cansaço. Mas a memória, treinada para a arte da escrita, ainda resiste, feito soldado nas trincheiras de uma guerra insana.

                                   Acordar de madrugada, sem sono, é privilégio de poucos. Reunir todos os pensamentos perdido no tempo, assim numa folha de papel, não é fácil. Lá longe, muito longe, a água cristalina de uma cachoeira, caminha lentamente em busca do mar. Mas eu aqui, fico a pensar na natureza da vida. O pensamento é uma canoa, navega o corpo e a alma voa. Por isso flutuo por mundos inimagináveis e por galáxias, dantes intransponíveis. Feito um falcão trocando suas penas, renovo os meus conceitos sobre a vida e a morte.

                                   Não vejo a hora de o dia amanhecer. Quero, desesperadamente, ouvir o ganir do cachorro, no portão da casa vizinha; o cantar do galo, no poleiro; o chilrear dos pardais desbotados e, é claro, as primeiras vozes dos anciões indos rumo á padaria do seu Manoel. A mudez da madrugada começa a me importunar. Tenho necessidade de ouvir vozes, sentir o calor humano das pessoas, mesmo que distantes. Essa coisa louca de respirar a agitação cotidiana, como se a solidão não fizesse parte da vida. Uma vida bandida, talvez.  

                                   Acordar de madrugada, sem sono, é privilégio de poucos.

Peruíbe SP, 17 de outubro de 2017

domingo, 1 de outubro de 2017

SEGREDOS DA ALFAFA FOFA


                                    Éramos um grupo coeso. Reuníamos quase todas as semanas, para descontrair, filosofar, dissertar sobre assuntos diversos. Chamávamos esses encontros, carinhosamente de “paradinha”. Isso mesmo, parávamos no tempo e esquecíamo-nos da rotina do cotidiano. Era de costume, regá-los ora com um suculento churrasco, ora com petisco, sem esquecer, é claro, das bebidas destiladas ou fermentadas.

                                   O grupo continua a existir. Narro no pretérito mais que perfeito, para ter um sabor gostoso de história, de lenda. Sei que um dia, quando partirmos para uma churrascada no andar de cima, seremos lembrados como amigos imortais, não acadêmicos, claro! Seremos apenas um nome de rua ou teremos um busto de bronze, encravado na praça da igreja matriz. Mas, por enquanto, está bom, assim. Vamos reunindo por aqui, ora na casa do Bill Gates, ora na casa do Didi.

                                   Um gostava de falar sobre óvni, outro de gnose, outro de contar sobre aventuras mulheris, outro discorria sobre um guru de nome Baxaregrita e, por aí se vai. Era terminantemente proibido falar ou querer resolver coisas do trabalho. Por falar nisso, eram todos oriundos do Palácio Caiçara, onde prestavam todos os tipos de serviços reais. A exceção de mim, que fazia parte das fileiras da honrosa policia secreta real. Em que pese ser forasteiro, fui muito bem acolhido pelo grupo.

                                   A amizade lapidada a mais de uma década, permitiu que, aos poucos, fossemos agraciados com apelidos carinhosos. Tinha o Cara de Cavalo, o Pé de Gato, o Bill Gates, o dom Orlando – Alfafa Fofa, o Didi, o Cavalinho, o Fernandinho Tó Tó, o Polônia e eu, claro, o Cobra Sem Veneno. Um deles gostava de tragar uma bebida de menta, esverdeada, que a chamava de “sangue de grilo”. Enquanto nos divertíamos até altas horas, o Polônia pilotava a churrasqueira e suava mais que frango em cima de teto de zinco quente.

                                   Em tempos de crise, que assolava não só o mundo, mas, também, o Reino Caiçara, todos os convivas, traziam algo de comestível ou bebível, para o encontro, tornando uma mesa farta. Um deles, amante da natureza e agricultor nato, não se esquecia da sua hortaliça. Chegava todo sorridente com um caixote, repleto de hortaliças diversas. Para cada uma, procurava descrever, desde o nome cientifico, até poderes fitoterápicos. Era nítido o carinho que ele nutria pela lavoura e as coisas da roça.

                                   Enquanto ele ministrava sua aula campesina, eu ficava imaginando, chegando à horta. Ao abrir a porteira, já ia dizendo: “Bom dia, meu pé de alface! Por que o está triste meu repolho? Deixa de ser assanhada, minha couve-flor. Por onde anda a acelga? Eu não te aguento mais, meu coentro”. Creio que todas elas, recepcionavam dom Orlando, com muito amor e respeito. Ao discorrer sobre a importância das verduras no organismo humano, dispensava um carinho especial pela alfafa. Não foi á toa, que o agraciamos com o apelido de “Alfafa Fofa”. Não era bullying, coisa de americano baitola.

                                   Entre um gole e outro, o Cara de Cavalo perturbava tanto o Polônia, que o amigo perdia as estribeiras e, assim meio gago, dizia: “Vai... vai te catar”. A gargalhada era geral. Bill Gates, o nosso maninho, como um bom anfitrião, não deixava faltar nada. Era só perceber alguém com a garganta seca, lá estava ele oferecendo uma latinha. Para falar a verdade, lá tinha de tudo, desde cachaça, até técnico de futebol. Ali, coroávamos e destronávamos governantes, resolvíamos as equações da vida, criávamos leis e revogávamos as disposições em contrário. Pensa num grupo coeso, pensa.

                                   O gostoso do grupo, não era só a descontração e a degustação da comida e da bebida, mas, acima de tudo, a busca do bem comum. Quando alguém precisava de ajuda ou de socorro, lá estavam todos estendendo a mão. Era preciso entender, que não havia jogo de vaidade e, ainda, expurgava-se qualquer sinal de traição, quer seja financeira ou moral. Todos falavam a mesma língua e professavam o mesmo ideal. A liberdade de expressão era soberana. “Posso não concordar com o que fala, mas lutarei de unhas e dentes, para que possa dizer”. Esse era o princípio básico de tudo.

                                   Cavalinho, irmão caçula do Cara de Cavalo, o mais comportado do grupo era um expert em preparar uma caipirinha e, por isso, posso dizer que era um barman enrustido, que não tardava a sair do guarda-roupa. Didi um pedreiro, preparando-se para ser justo e perfeito, sabia esquadrinhar a alma e coração dos amigos. Fernandino Tó Tó andava sumido e diziam que, depois que se acasalou com uma jurisconsulta, andava refugiado lá pelos lados da Laranja Azeda, no Condado de Itariri SP. Já o Pé de Gato, em suas filosofias e estudos transcendentais, nos levava a mundos insondados.

                                   Mas voltemos ao assunto mãe. Desculpem-me, pois fico entusiasmado e, por isso, costumo divagar. Procuro não ser prolixo, mas não tem jeito, não sei me controlar. A alfafa fofa passou a ser imprescindível na mesa, durante os encontros do grupo. Quando alguém se encarregava de organizar o encontro, ligava para dom Orlando e dizia: “Não se esqueça de levar a alfafa fofa”. Encontro sem alfafa fofa, não era encontro, era reunião. E reunião era por demais maçante.

                                   Penso que além dos poderes fitoterápicos da alfafa fofa, o maior deles era unir ainda mais o grupo, estreitar os laços de amizade, solidificar a amizade nascida há mais de uma década. Não existia nada de mais belo, quando todos saboreavam as folhas de tão deliciosa hortaliça. Engraçado era ver dom Orlando, querendo comer tudo sozinho. Parecia um discípulo do Huck.

                                   Enfim, eis ai o grande SEGREDO DA ALFAFA FOFA. 

Peruíbe SP, 01 de outubro de 2017