terça-feira, 17 de outubro de 2017

O NOTÍVAGO


                                    Sabe o que é acordar de madruga e ver o sono se esvair pelos dedos? Não se ouve o estrilar do grilo, o coaxar do sapo martelo e, muito menos, o piar da coruja na cumeeira da casa velha. Nada de som e de luz... um vazio imenso, apenas. Os casais apaixonados acordam de repente, na madrugada do leito, para fazerem amor. Mas eu, desperto tão cedo, no vazio do quarto, para pensar na vida e falar de mim mesmo. Seriam coisas da idade ou perturbação da mente? Não sei!

                                   No silêncio, que me cerca, busco alento na literatura e nos rabiscos do papel. Nessa arte solitária, procuro externar meus pensamentos e sentimentos perdidos no tempo. Lembro-me do meu pai e dos meus avós que se foram. Recordo com saudades da minha infância em Guaimbê SP, correndo pelas suas ruas descalças, sem compromisso com a vida. Como na película de um filme antigo, vejo a vida passar pela minha memória, desgastada pelo tempo. Por falar nisso, quanto tempo me resta? Sei lá!

                                   Amigos que se foram, antes do combinado, sem me avisar. Romances desfeitos, por coisas banais. Os filhos que, um dia, nasceram pela graça de Deus. Viagens internacionais, que não aconteceram, mas que se materializaram nos projetos do filho empreendedor. As fotos amareladas no álbum de família demonstram que o tempo é ingrato e não perdoa. Carcomido pela vida, o corpo dá sinais de cansaço. Mas a memória, treinada para a arte da escrita, ainda resiste, feito soldado nas trincheiras de uma guerra insana.

                                   Acordar de madrugada, sem sono, é privilégio de poucos. Reunir todos os pensamentos perdido no tempo, assim numa folha de papel, não é fácil. Lá longe, muito longe, a água cristalina de uma cachoeira, caminha lentamente em busca do mar. Mas eu aqui, fico a pensar na natureza da vida. O pensamento é uma canoa, navega o corpo e a alma voa. Por isso flutuo por mundos inimagináveis e por galáxias, dantes intransponíveis. Feito um falcão trocando suas penas, renovo os meus conceitos sobre a vida e a morte.

                                   Não vejo a hora de o dia amanhecer. Quero, desesperadamente, ouvir o ganir do cachorro, no portão da casa vizinha; o cantar do galo, no poleiro; o chilrear dos pardais desbotados e, é claro, as primeiras vozes dos anciões indos rumo á padaria do seu Manoel. A mudez da madrugada começa a me importunar. Tenho necessidade de ouvir vozes, sentir o calor humano das pessoas, mesmo que distantes. Essa coisa louca de respirar a agitação cotidiana, como se a solidão não fizesse parte da vida. Uma vida bandida, talvez.  

                                   Acordar de madrugada, sem sono, é privilégio de poucos.

Peruíbe SP, 17 de outubro de 2017

domingo, 1 de outubro de 2017

SEGREDOS DA ALFAFA FOFA


                                    Éramos um grupo coeso. Reuníamos quase todas as semanas, para descontrair, filosofar, dissertar sobre assuntos diversos. Chamávamos esses encontros, carinhosamente de “paradinha”. Isso mesmo, parávamos no tempo e esquecíamo-nos da rotina do cotidiano. Era de costume, regá-los ora com um suculento churrasco, ora com petisco, sem esquecer, é claro, das bebidas destiladas ou fermentadas.

                                   O grupo continua a existir. Narro no pretérito mais que perfeito, para ter um sabor gostoso de história, de lenda. Sei que um dia, quando partirmos para uma churrascada no andar de cima, seremos lembrados como amigos imortais, não acadêmicos, claro! Seremos apenas um nome de rua ou teremos um busto de bronze, encravado na praça da igreja matriz. Mas, por enquanto, está bom, assim. Vamos reunindo por aqui, ora na casa do Bill Gates, ora na casa do Didi.

                                   Um gostava de falar sobre óvni, outro de gnose, outro de contar sobre aventuras mulheris, outro discorria sobre um guru de nome Baxaregrita e, por aí se vai. Era terminantemente proibido falar ou querer resolver coisas do trabalho. Por falar nisso, eram todos oriundos do Palácio Caiçara, onde prestavam todos os tipos de serviços reais. A exceção de mim, que fazia parte das fileiras da honrosa policia secreta real. Em que pese ser forasteiro, fui muito bem acolhido pelo grupo.

                                   A amizade lapidada a mais de uma década, permitiu que, aos poucos, fossemos agraciados com apelidos carinhosos. Tinha o Cara de Cavalo, o Pé de Gato, o Bill Gates, o dom Orlando – Alfafa Fofa, o Didi, o Cavalinho, o Fernandinho Tó Tó, o Polônia e eu, claro, o Cobra Sem Veneno. Um deles gostava de tragar uma bebida de menta, esverdeada, que a chamava de “sangue de grilo”. Enquanto nos divertíamos até altas horas, o Polônia pilotava a churrasqueira e suava mais que frango em cima de teto de zinco quente.

                                   Em tempos de crise, que assolava não só o mundo, mas, também, o Reino Caiçara, todos os convivas, traziam algo de comestível ou bebível, para o encontro, tornando uma mesa farta. Um deles, amante da natureza e agricultor nato, não se esquecia da sua hortaliça. Chegava todo sorridente com um caixote, repleto de hortaliças diversas. Para cada uma, procurava descrever, desde o nome cientifico, até poderes fitoterápicos. Era nítido o carinho que ele nutria pela lavoura e as coisas da roça.

                                   Enquanto ele ministrava sua aula campesina, eu ficava imaginando, chegando à horta. Ao abrir a porteira, já ia dizendo: “Bom dia, meu pé de alface! Por que o está triste meu repolho? Deixa de ser assanhada, minha couve-flor. Por onde anda a acelga? Eu não te aguento mais, meu coentro”. Creio que todas elas, recepcionavam dom Orlando, com muito amor e respeito. Ao discorrer sobre a importância das verduras no organismo humano, dispensava um carinho especial pela alfafa. Não foi á toa, que o agraciamos com o apelido de “Alfafa Fofa”. Não era bullying, coisa de americano baitola.

                                   Entre um gole e outro, o Cara de Cavalo perturbava tanto o Polônia, que o amigo perdia as estribeiras e, assim meio gago, dizia: “Vai... vai te catar”. A gargalhada era geral. Bill Gates, o nosso maninho, como um bom anfitrião, não deixava faltar nada. Era só perceber alguém com a garganta seca, lá estava ele oferecendo uma latinha. Para falar a verdade, lá tinha de tudo, desde cachaça, até técnico de futebol. Ali, coroávamos e destronávamos governantes, resolvíamos as equações da vida, criávamos leis e revogávamos as disposições em contrário. Pensa num grupo coeso, pensa.

                                   O gostoso do grupo, não era só a descontração e a degustação da comida e da bebida, mas, acima de tudo, a busca do bem comum. Quando alguém precisava de ajuda ou de socorro, lá estavam todos estendendo a mão. Era preciso entender, que não havia jogo de vaidade e, ainda, expurgava-se qualquer sinal de traição, quer seja financeira ou moral. Todos falavam a mesma língua e professavam o mesmo ideal. A liberdade de expressão era soberana. “Posso não concordar com o que fala, mas lutarei de unhas e dentes, para que possa dizer”. Esse era o princípio básico de tudo.

                                   Cavalinho, irmão caçula do Cara de Cavalo, o mais comportado do grupo era um expert em preparar uma caipirinha e, por isso, posso dizer que era um barman enrustido, que não tardava a sair do guarda-roupa. Didi um pedreiro, preparando-se para ser justo e perfeito, sabia esquadrinhar a alma e coração dos amigos. Fernandino Tó Tó andava sumido e diziam que, depois que se acasalou com uma jurisconsulta, andava refugiado lá pelos lados da Laranja Azeda, no Condado de Itariri SP. Já o Pé de Gato, em suas filosofias e estudos transcendentais, nos levava a mundos insondados.

                                   Mas voltemos ao assunto mãe. Desculpem-me, pois fico entusiasmado e, por isso, costumo divagar. Procuro não ser prolixo, mas não tem jeito, não sei me controlar. A alfafa fofa passou a ser imprescindível na mesa, durante os encontros do grupo. Quando alguém se encarregava de organizar o encontro, ligava para dom Orlando e dizia: “Não se esqueça de levar a alfafa fofa”. Encontro sem alfafa fofa, não era encontro, era reunião. E reunião era por demais maçante.

                                   Penso que além dos poderes fitoterápicos da alfafa fofa, o maior deles era unir ainda mais o grupo, estreitar os laços de amizade, solidificar a amizade nascida há mais de uma década. Não existia nada de mais belo, quando todos saboreavam as folhas de tão deliciosa hortaliça. Engraçado era ver dom Orlando, querendo comer tudo sozinho. Parecia um discípulo do Huck.

                                   Enfim, eis ai o grande SEGREDO DA ALFAFA FOFA. 

Peruíbe SP, 01 de outubro de 2017  

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A REAL SEITA SECRETA


                              Desde que me entendo por gente, sempre fui inquieto com tudo que me cerca. Nunca acreditei na verdade absoluta e, por isso, sempre caminhei em busca de resposta daquilo que me aguça a curiosidade. Nessa busca interminável, já deparei com toda sorte de assunto e de mistério. Nas minhas pesquisas solitárias, desbravei mundos insondáveis e conceitos arcaicos, escondidos na ignorância da mente humana.

                        Por isso, meus ouvidos nunca se prenderam ao que outros pensam ou deixam de pensar. Mas uma coisa é certa, tudo que é feito às escondidas, revestido de mistérios, causa especulações ou conclusões errôneas de pessoas maldosas e pouco esclarecidas intelectualmente. Por conta disso, criam-se mitos ou factoides, que vagam pela eternidade.

                        Nas minhas andanças pelas províncias do Reino Caiçara, conversando aqui e acolá com súditos de singeleza impar, fui surpreendido com informações de que nos muros intra-palaciano, existe uma seita secreta, com rituais desconhecidos. Dizem até que invocam os poderes do “cabrunco”, durante os trabalhos, não sabendo se religiosos ou não. Como quem conta um conto aumenta um ponto, dizem que os seguidores são escolhidos à dedo dentre os habitantes das províncias e, ainda, que durante os rituais, sacrificam animais.

                        Mas, em que pese todo tipo de especulação, o que preocupa é que os  adeptos da tal Real Seita Secreta – R.S.S, infestaram a monarquia caiçara. Eles ocupam os principais cargos do primeiro e segundo escalão. Dizem que são eles que mandam e desmandam e que o Rei Fabrício é apenas um “pau mandado”, uma “Maria vai com as outras”. Já é sabido que, desde que ascendeu ao trono, rei ganhou de presente uma “eminência parda”. Ainda não se comemorou o primeiro ano de reinado e já se percebe as primeiras arranhaduras ou rachaduras de seu governo.  

                        Todas as vezes que se fala em mudança de governo, onde os governados sonham com melhores dias vindouros, vem à mente o romance “A revolução dos bichos”, de George Orwell. O que chega, diz que tudo vai mudar para melhor e que as aberrações do anterior, serão apenas um quadro velho pendurado na parede do esquecimento. Mas, ao final, o que se vê, são as repetições de erros anteriores. E o que é pior, membros renegados do governo anterior, fazendo parte da nova corte.

                        Como diz o adágio popular: “Mudam-se as moscas, mas a merda é a mesma”. O que difere esse governo do anterior é apenas a introdução de membros da Real Seita Secreta no primeiro e segundo escalão. Como a origem dessa seita é secular e, portanto, está em todas as partes do mundo, crê-se que o rei é apenas uma marionete humana, na mão dos que querem apenas usurpar o poder e a riqueza do Reino Caiçara.

                        As reuniões com escopo de se discutir assuntos de interesse do palácio ou das províncias, são realizadas às portas fechadas, não se permitindo a presença da imprensa e, muito menos, respeitando o que preceitua a lei da transparência. Eu, um simples vassalo, sem título de nobreza, pedi um encontro com rei e nunca fui atendido. Fui barrado pelos soldados de chumbo da guarda palaciana. Sentado na cadeira do trono, o rei só tem olhos para aqueles que o bajulam. Quando ele era apenas um dos membros, que compunham o Parlamento (Câmara dos Comuns), assim não agia.  

                        Dizem as más línguas que, mesmo antes de ascender ao trono, o Rei Fabrício já era membro honorário da Real Seita Secreta. Acreditam os súditos que essa é a razão primordial para convocar membros dela, a fim de comporem postos estratégicos do governo.

                        Só nos resta esperar que o rei não se torne refém de seus próprios segredos. A história (tempo) não perdoa.   

 

Peruíbe SP, 22 de agosto de 2017

sexta-feira, 23 de junho de 2017

MORTOS DE RAIVA


                                                        Eu vi, ninguém me contou. Foi uma cena inusitada, digna de registro para posteridade. Pena que eu estava desprovido de máquina fotográfica, gravador superpotente ou aparelho celular, de última geração. Por isso, hão de acreditar na minha narrativa, para que esta história ganhe vida e clima de realidade.  Do contrário, não passará de um mero texto lançado ao vento. Estou certo de que darão credibilidade ao que eu digo. Se assim acontecer, vou continuar nessa lida de escrever o que me vem na mente ou em registros remotos de minha infância.

                                               Era por volta da meia noite, quando eu passava perto do campo santo. A lua cheia, escondida entre nuvens, observava o meu caminhar lento e tremulo. Qualquer barulho ou balançar de uma folha causava-me espanto. Na minha imaginação, até uma sombra perseguia-me, como que querendo pregar-me um susto. As lendas da minha avó saltavam aos olhos, ganhando forma e vida. Os mistérios e enigmas do universo, sempre despertaram minha curiosidade.

                                               Mesmo suando frio, procurei alojar-me atrás de uma árvore de onde pudesse observar a cena, sem ser notado. Minha respiração ofegante era contida com muito esforço. Qualquer deslize da minha parte poderia colocar tudo a perder. Uma mistura de medo e curiosidade, não me deixava sair dali. Fogos-fátuos brilhavam aqui e acolá, como na árvore de natal. Uma coruja pousou no cruzeiro e entoou um canto sombrio. As placas enferrujadas dos túmulos dançavam a dança do vento gelado, naquela noite interminável.

                                               De repente, eis que vislumbro dois cadáveres, sentados sobre um ataúde, na entrada do campo santo. De longe observei que estavam revoltados, por algo que os incomodavam. Apurei meus ouvidos e, então, tomei tento do que estava acontecendo. Segundo eles, o local gozava de total abandono. Jazigos abertos ou violados, chorumes escorrendo além-muros, ossos jogados ao relento, campa sem identificação, sala de velório sem o mínimo de conforto e por ai se vai.

                                               Já não basta a última morada ser construída distante do centro urbano, no meio do mato. Ainda temos que suportar esse abandono e desrespeito”, dizia o mais tagarela. E o outro retrucou: “Que tal fazermos uma greve de fome e tirarmos o sono daqueles que ainda respiram a vida?”. “Boa ideia! Vamos sair à noite e visitá-los no conforte de seus lares, para cobrar o que nos é de direito?”, disse o primeiro. E assim, entre um assunto e outro, a conversa se estendeu noite à dentro.

                                               E eu ali, quieto e calado, ouvindo e observando tudo. Então, passei a conversar com meus botões. Será que os governantes e as pessoas do povo, imaginam que jamais irão morar ali? Pensam ser imortais e acreditam que tudo é eterno. Ledo engano! Os moradores daquele condomínio não tem mais voz ativa e, o que é pior, não saem mais de suas urnas, para irem até as urnas eleitorais. Se quando estavam entre os seres viventes, poucas importâncias davam a eles, imagina agora. Sem vida, sem voz, longe de tudo e de todos, esquecidos pelo tempo. É certo que ninguém tem tempo, para cuidar de quem, agora, tem todo tempo do mundo.

                                   Talvez, num tempo não muito distante, o rei lembre que ali também pode estar descansando alguém da monarquia ou que deteve título de nobreza. Se bem que ali, o poder econômico ou os títulos, pouca importância tem. Mas o que mais se espera, é respeito aos que tanto fizeram pelo reino, enquanto aqui estiveram. Não pelo que conquistaram, mas, sim, em suas memórias. Ali repousam aqueles que ajudaram a construir a história do Reino Caiçara.

                                   A conversa estava para lá de boa, quando um deles lembrou que o dia já se avizinha. Se não se recolhessem logo aos seus aposentos, poderiam confundi-los com os espectros da noite. Saíram dali e adentaram, até desaparecerem feito vultos na escuridão. Permaneci mais um tempo ali, pois não queria ser notado. Eu estava tão empolgado, que nem percebi quando a coruja foi embora.

                                   Só sei que os dois foram dormir, mortos de raiva.

 

Peruíbe SP, 24 de junho de 2017.

sábado, 17 de junho de 2017

MAR DE LAMA


                                   É remota a minha preocupação com as forças da natureza. Aprendi desde minha tenra infância, que com ela não se brinca. Lembro-me, como se fosse hoje, que quando começava uma chuva torrencial ou uma ventania incontrolável, minha mãe e eu, danávamos a rezar, uma reza interminável. Gastávamos o terço sagrado todinho, em orações repetitivas, até a tempestade passar. Virávamos o espelho, para que os relâmpagos e os raios, não viessem refletir no interior da casa e, por conseguinte, nos atingir.

                                   Mesmo tremendo de medo, guardava em Deus que aquela tormenta iria passar. E quando passava, eu saia no quintal e notava uma calmaria imensa. Ao divisar o horizonte, parecia ouvir a voz de Deus, dizendo: “Filho meu, não desafia o meu poder e cuida com carinho da natureza, que construí com carinho e suor”. Quando o tempo fechava seu semblante, eu desligava os aparelhos elétricos da tomada. Minha casa entrava em silêncio. Pairava no ar, um clima de respeito tanto ao Criador, quanto à natureza.

                                   Nas minhas divagações memoriais, ficava imaginando os dias e noites do dilúvio, narrado na Sagrada Escritura. Qual era a visão catastrófica que Noé tinha da terra, enquanto o mar subia e a terra ia desaparecendo aos poucos? Com o passar dos dias, era só água em todos os pontos geográficos da terra. De uma coisa estou certo, a Arca – construída sob a orientação do Pai, era mais resistente que o Titanic. Tanto é que, ao fim da tormenta, isto é, depois de quarenta dias e quarenta noites, Noé e seus familiares, quanto os animais, ancoraram incólumes no Monte Ararat.

                                   Reafirmo que sempre tive medo e respeitei a força da água, do fogo e do ar. Bastam ver a fome voraz do fogo devorando uma floresta, ou o beijo ensurdecedor dos ciclones e tornados, jogando tudo pelos ares, por onde passa. O homem torna um ser impotente, diante de uma cena devastadora. Nem mesmo a ciência ou a força dos governantes poderosos, conseguem frear a ira de Deus, representada por esses fenômenos naturais.

                                   Mas o que vem me preocupando nos últimos dias, são as ondas barrentas, as quais surgiram no mar, que banha o Reino Caiçara. Os tabloides e os cientistas de meia tigela passaram a conjecturar sobre diversas possibilidades do surgimento de tal fenômeno. Uma coisa é certa, afugentaram-se os turistas. É degradante, observar inerte, o mar revolto, chorando lama de tristeza. Debruçado na janela do meus olhos, reporto-me as cenas da natureza enfurecida, quando da minha infância.

                                   Fico imaginando o mar caminhando pelas ruas e vielas do reino, numa vingança desenfreada, vindo cobrar o que dele fora surrupiado. As imagens do Tsunami, ocorrido na Indonésia, não me saem da memória. Colhidos de surpresa, nem os governantes e nem os governados, terão em mãos a Arca ou o Titanic, para salvarem de tamanha tragédia. Deus não perdoa e a natureza cobra as afrontas humanas. De nada adiantou os ouros guardados ou os títulos de nobreza, usados durante séculos. Meu Deus, que isso não passe de uma imaginação momentânea!

                                   Mas outra lama, também ronda o Reino Caiçara. Essa, por exemplo, sucumbe o Reino, o Parlamento e a Suprema Corte. Se não contida a tempo, pode enlamear não só o Palácio Real, mas, também, todas as Províncias, encobrindo para sempre a honra e a dignidade de um povo honesto, trabalhador e ordeiro. Porém, quando contaminar a Corte Suprema, exemplo máximo de justiça, nada mais resta à nação. Um povo desacreditado e com a visão turva, pedirá para não mais existir. Nesse momento, a mão pesada de Deus, cairá sobre a nação, como ocorreu com Sodoma e Gomorra.

                                   Não sei ainda, se se trata do fim dos tempos. Ao que parece, as forças bravias do mar, dão sinais de cansaço, através de ondas lamacentas. A natureza quer dizer algo, que nosso parco entendimento não consegue decifrar. Não tardará e seremos todos engolidos pela fúria de Deus e não sobrará reino algum na face terra. Nesse dia, todos nós estaremos livres daqueles que buscaram o poder pelo poder. Todos os governantes autoritários e gananciosos estarão submersos em suas luxurias, engolidos por um mar de lama, jamais visto.

                                   É triste ver que um mar de lama banha o Reino Caiçara.

 

Peruíbe SP, 15 de junho de 2017.

sábado, 3 de junho de 2017

FIAT LUX


                                   No princípio, Deus criou o céu e a terra.  E vendo que ela estava sem forma e vazia e, ainda, que caminhava sobre a face do abismo (Gen. 1:2), Deus achou por bem, criar a luz (Gen. 1:3). Isso foi à tarde e a manhã do primeiro dia. No segundo dia, Deus criou uma expansão de água (Gen. 1:6), ajuntou-a num canto e chamou de mar (Gen. 1:10). Depois e, aos poucos, Ele foi criando outras coisas, a fim de embelezar e povoar a terra. Já no sexto dia, vendo que tudo transcorria na mais perfeita paz e harmonia, sentiu que algum ser deveria cuidar e dominar a sua criação.

                                   Num lampejo de inspiração divina, Deus resolveu criar o homem, à sua imagem e semelhança (Gen. 1:27). Isso foi à tarde e a manhã do sexto dia. Já cansado de moldar a terra ao seu gosto, Deus achou por bem, descansar e abençoar aquele dia (Gen. 2:2-3). Deitado numa rede e, tomando uma água de coco, Deus ficou contemplando sua obra prima, por um longo tempo. Penso que de tanta alegria, Ele foi dormir tarde da noite.

                                   Não sei se de lá para cá, Ele tem descansado com tanta tranquilidade, como foi no início da criação. Digo isso, porque, com o passar dos anos, o homem abusando do poder que Deus o concedera começou a destruir aquilo, que o Pai Celestial construiu com tanto amor e suor. Não sei se levou só sete dias, do começo da concepção até a conclusão da obra celestial. Até porque tudo na Sagrada Escritura é figurativo. Como o tempo de Deus é diferente do nosso, seis dias pode ser seis anos, sessenta, seiscentos, sessenta mil, sessenta milhões, sessenta bilhões e por aí se vai.

                                   Estando no Jardim do Éden e ao descansar sob uma frondosa parreira, tenho às mãos, um tabloide matutino, cuja manchete é: “O Palácio Real informa que a partir de junho, o Reino Caiçara sairá da escuridão”. É certo que o homem ao ser criado por Deus, aproveitou o ajuntamento de água e inventou as hidroelétricas e termoelétricas. A partir de então, pagamos energia até hoje. Deus não esperava que o homem, além de abusar do poder concedido, inventou a política e aprendeu a corromper todos os seres viventes e pensantes do universo. Não é à toa que o Reino Caiçara vive na escuridão, como era no princípio da Criação Divina (Gen. 1:2).

                                   Não creio que hoje, Deus consegue descansar tranquilamente, como fez no sexto dia da criação. Isso porque a criatura, além de desrespeitar o Criador, está acabando com tudo que foi esculpido com tanto amor e dedicação. No princípio, só havia o Criador, a natureza por ele desenhada e um homem puro de alma e coração (Adão). A política e a corrupção, pestes perniciosas que devoram tudo que encontram pela frente, não estava no imaginário de Deus. As duas pestes daninhas, nasceram com a maldade e a modernidade, portanto, não estavam no script da Criação.

                                    Desculpem-me divagar, mas voltando a escuridão do Reino, não sei qual das escuridões refere-se o monarca, Rei Fabrício. Seria a escuridão física, por falta de iluminação pública nas ruas das províncias ou a escuridão moral e ética, por falta de comprometimento na condução ilibada da coisa pública? Pode ser também, a escuridão da falta de conhecimento de um povo criado e conduzido sob o cabresto dos coronéis do campo, algo comum desde a colonização.

                                   Tirar o reino da escuridão, não será tarefa fácil para um monarca comprometido com o passado negro da monarquia. É certo que o Parlamento (Câmara dos Comuns e Câmara dos Lordes) vive num breu enorme, onde a escuridão da honra, tal qual uma nuvem negra, ofusca os olhos e as mentes dos que ali estão. Eles cuidam do próprio umbigo e não veem as necessidades de um povo pobre e humilde.

                                   Os súditos e os vassalos, não mais acreditam em promessas vãs, uma vez que, já há séculos, vem sendo ludibriados por mandatários inescrupulosos e por bajuladores nojentos. A corte do Reino Caiçara, ao que parece, continuará na escuridão, por muitos séculos. Até porque, é na escuridão, onde repousa o trono, que as coisas escusas brotam, florescem e são colhidas, para o deleite daqueles que se assenhoram do poder.

                                   Fiat lux”, disse Deus alegremente, nos dias da criação. “Fiat tenebris”, disse o homem, ao abusar do poder, concedido pelo Criador.  

P.S: Fiat lux – faça-se a luz. Fiat tenebris – faça-se as trevas.

 

Peruíbe SP, 03 de junho de 2017.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O PARLAMENTO DEFINHA


                                    Tenho comigo, que todo poder embriaga e corrompe. Por isso, todas as vezes que falo sobre ele, busco referência em duas obras literárias, de domínio público, a saber: “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel e “A Revolução dos Bichos”, de George Owell”. As pessoas nascem puras, mas o ambiente em que vivem as corrompem, pois o homem se adapta com facilidade ao meio em que habita, fato retratado na obra “O Cortiço”, de Aloísio de Azevedo. Também é fascinante dissertar sobre isso.

                                   Nada nos envaidece tanto, quando estamos investidos de títulos e honrarias. Sentimo-nos deuses, quando temos uma insígnia cravada na nossa vestimenta ou na nossa mente. Parece que não somos mais terrestres e, sim, seres sobrenaturais, com poderes divinos. Uma vez nomeados ou empossados, esquecemo-nos das pessoas à nossa volta ou dos amigos mais próximos. Assim aconteceu, por exemplo, com um tal de “caçador de marajá”. Mas um final amargo é reservado para essas pessoas arrogantes, que se acham intocáveis.

                                   Se têm uma classe que se encaixa perfeitamente ao que ora narro, é dos mandatários e dos políticos. Ao galgarem o mais alto posto na sociedade, esquecem que já foram povo ou pobres. Não entendem que tudo têm um tempo e um fim. E contra isso, não há remédio. As regalias do poder hipnotizam essas pessoas e fazem delas, escravas da luxúria. Bebem o sangue do povo, no cálice da corrupção. Vendem a própria alma, em nome do prazer, que as mordomias proporcionam.

                                   Foi numa dessas observâncias, num desses momentos de solidão, que notei que o nosso Parlamento (Câmara dos Comuns e Câmara os Lordes), sofre de uma doença incurável, chamada “corrupção sistêmica”. Com menos de cem dias, após serem empossados, os legisladores já estão negociando o destino do “Reino Caiçara”, não em função do bem comum, mas, sim, em razão de interesses próprios. Não se importam com a esperança e a angustia do povo. Esse, também, foi o comportamento do reino anterior.

                                   Assim como em outros reinos além-mar, o nosso também tem donos. Tanto a Corte, quanto o Parlamento, rezam na cartilha dos mandatários. Chego a triste conclusão de que o rei reina, mas não governa. Além do que, corre à boca solta, de que o Rei tem uma eminência parda. Tanto ele, quanto os parlamentares, são apenas marionetes, pau mandados, daqueles que manipulam o poder no “Reino Caiçara”. Ao que parece, são três mandatários, E o povo? Ora o povo! Ele só é importante em época de eleição, quando é comprado com cestas básicas, dentaduras ou milheiros de tijolos.

                                   Quando o Parlamento, em conluio com a Corte, decidem à porta fechada, assuntos relevantes, longe do conhecimento do povo e da imprensa, demonstram que a lama da propina e da improbidade administrativa, já engoliu a honra e a dignidade dos governantes. Tentam maquiar as mazelas da coroa, postando em “redes sociais” (tabloides modernos), reuniões desnecessárias e inaugurações de elefantes brancos, a fim de ludibriar os súditos desavisados e vassalos menos esclarecidos. E a Suprema Corte, que só se preocupa com os holofotes da fama, finge nada ver, dizendo que a justiça é cega, muda e surda.

                                   As Províncias estão jogadas às traças e os pagadores de impostos, veem suas patacas (moedas) esvaírem pelo ralo da malversação do dinheiro público. O Bailarino, o Sacristão, o Hércules, o Publicano, a Cinderela, a Jurisconsulta, bem como, os demais, já se envergaram e não mais representam a vontade popular. Entre uma negociata e outra, realizada na calada da noite e longe do conhecimento do povo, o Parlamento vai se definhando aos poucos. Vai se distanciando do sagrado dever de fiscalizar a corte, de legislar e defender o bem comum.

                                   Enquanto os mandatários do poder se assenhoram do patrimônio público, o Rei dorme o sono dos anjos, o Parlamento vive o seu faz de conta, a Suprema Corte posa nas manchetes de jornal e os súditos carregam o fardo da pobreza e da ignorância. Que Deus se apiede de nós, para que não nos definhemos também!

 

Peruíbe SP, 07 de abril de 2017.