terça-feira, 10 de abril de 2018

REMINICENSCIAS CAMPESINAS


                                    Para começar essa dissertação, devo confessar que não sou muito adepto ao mundo moderno, pois a tecnologia às vezes me assusta. As parafernálias descobertas neste século criam a uma confusão enorme na minha memória. Sei que muitas doenças, até então desconhecidas e incuráveis, só foram identificadas, graças ao avanço da medicina e da ciência. Nesse momento, entram os computadores e máquinas ultramodernos.

                                   É nesse ponto, que acabo me rendendo ao mundo robotizado de hoje. Quem, por exemplo, nasceu nos anos dourados, sem violência e onde as doenças eram curadas com plantas ou benzimentos, tem que se acostumar com o que hora se apresenta. Fui aos poucos e sem querer, assimilando o comportamento e o linguajar de hoje. Mas esse sacrifício, jamais vai custar o abandono das minhas origens e tradições.

                                   Creio que as pessoas percebem que sempre me reporto à minha terra natal, quando falo sobre coisas que marcaram a minha formação ética e moral. Lá está a argila que moldou a alma e o coração de uma pessoa simples e, que, embora o mundo tenha tentado corromper, não obteve êxito. Só Deus sabe a luta que tenho enfrentado para vencer as procelas da vida. O jardim florido da praça matriz e as ruas descalças da minha cidade conhecem de cátedra o meu proceder.

                                   Um conterrâneo inspirado e valendo de recursos modernos, criou um grupo denominado “De volta ao passado”, isso no tal de zap zap. Venho acompanhando diuturnamente, a conversa dos participantes. Através do bate-papo descontraído deles, passo a recordar do nome de pessoas, perdidas na memória. Alguns fatos e lugares pitorescos transportam-me para os mais remotos e longínquos rincões da minha infância. Deito no colo da saudade e sonho com tempos que não voltam mais.

                                   Ao vê-los retratar a vida bucólica do lugar, viajo no tempo e descubro que muitos amigos da infância, tornaram-se médicos, dentistas, advogados, empresários, fazendeiros, artistas, economistas, contadores de história e por ai se vai. A música “No dia que sai de casa”, cantada por Zezé Di Camargo e Luciano, retrata bem o que se passou comigo e com meus conterrâneos. Disse um trecho da letra: “Sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela (mãe) jamais saiu. Ela me disse assim, Meu filho vai com Deus, que esse mundo inteiro é seu”.

                                   Ganhamos o mundo, estrada a fora. Desbravamos lugares desconhecidos e viajamos por galáxias dantes navegadas. Mas, em momento algum, perdemos a nossa essência. A vida modernizou, mas continuamos firmes e presos à nossa raiz. As coisas simples do sertão continuaram impregnadas na nossa alma e no nosso coração. Sinto o cheiro do café no torrador, depois moinho e passado no coador de pano. A comida cozida no fogão a lenha e as modas de viola fazem de mim um caipira nato.  

                                   Mas, ao apreciar as conversas da turma “De volta ao passado”, trouxe-me uma notícia, deveras triste por demais. Um dos meus grandes amigos de infância, com quem eu passava tardes e tardes, assistindo os filmes e desenhos em preto e branco, em companhia dos pais e do irmão dele, partiu antes do combinado, isso a cerca de dois anos atrás. Isso me pegou de surpresa e me fez entender, que a infância se transforma em realidade e que a vida é breve.

                                   As peraltices, as brincadeiras na rua descalça, as histórias contadas pelos nossos avós, das lendas em noites enluaradas, o primeiro amor platônico, o badalar do sino na torre da igreja matriz, as cachoeiras de águas cristalinas, os bailes no terreirão da fazenda, o ordenhar da vaquinha Mimosa, o latido do cachorro Pitoco, o trote do cavalo pangaré, são reminiscências do campo, da roça e de uma vida simples e sem maldade.  

                                   O meu amigo que se foi, antes do combinado, deixou doces marcas em mim. Estou certo de que ele foi à frente de nós, preparar outro lugar tão simples e aconchegante como o da nossa terra natal. Quando chegarmos lá e isso não tarda, vamos encontra-lo sorrindo para nos receber. Vamos sentar em torno dele e, num papo descontraído, recordar da nossa vida campesina.

 

Peruíbe SP, 10 de abril de 2018.

 

sábado, 31 de março de 2018

JUSTIÇA CAPENGA

 
                                   Ainda nos bancos da escola, isso lá na minha terra natal, eu aprendi muitas coisas, dentre elas, o Hino Nacional e uma matéria denominada “Organização Social e Política Brasileira”. Foi ali que aprendi a respeitar os símbolos nacionais, bem como, o significado das palavras honra e dignidade. Não bastasse isso, descobri o que significa viver em sociedade. O professor de nome Levi, tinha uma didática impar, para ensinar. Devo a ele meu conhecimento, no que diz respeito à sociedade e a política.

                                   Tempo em que não havia computador e, por conseguinte, o copia e cola dos tempos modernos. Tínhamos que pesquisar em livros e bibliotecas e, depois, dissertar sobre o que lera. Desde a tenra infância, fui moldado na bigorna do respeito às pessoas e ao bem comum. Numa cidade pequena do interior, onde todo mundo conhece todo mundo, não havia como negar auxílio e, muito menos trapacear. Se alguém maquiasse a verdade, tinha que deixar a cidade á toque de caixa. Era desmoralizado, achincalhado.

                                   Não era à toa, que as pessoas procuravam se comportar de forma ilibada. A benevolência era marca registrada dos conterrâneos. Lembro-me que ladrões, estelionatários, padrecos, viados e prostitutas não faziam ninho ali. Não demorava muito. Juízes e delegados - borra botas -, saiam pelas portas do fundo. Cansei de ver os valentões de botecos, pedirem clemência em praça pública. Os entreveros, ou se resolviam na conversa ou na bala da garrucha winchester enferrujada. A doença de mulher assanhada era curada na chibata. Naquele tempo, o chicote estralava. Mijar fora do pinico, nem pensar!

                                   E assim fui crescendo, entre os ensinamentos do professor Levi e a escola da vida. Como velho e eterno observador do cotidiano, procurei tirar sempre nota alta, nas questões do comportamento humano. Li no quadro negro da vida, que não há tempo para as algazarras no fundo da classe. O mundo tem pressa e o livro da existência, pode ser fechar a qualquer momento.  

                                   Até as crianças da minha infância, não trapaceavam nos jogos de burquinha (bolas de gude). Se o fizessem, além de lavarem croques na cabeça, eram excluídas da brincadeira. Desrespeitar o mais velhos, longe disso. As aulas de OSPB eram vividas na prática. Hoje, já passado tantos anos, ainda recordo do professor Levi e do Osvaldo, da professora Marlene e da Neusa, bem como, de tantos outros. O caráter e o ensinamento daqueles mestres deixaram marcas indeléveis na minha alma e no meu coração.

                                   Lá na minha terra natal, encravada na noroeste do Estado, tinha de tudo. Havia um prefeito fofoqueiro, um padre comilão, um delegado mulherengo, um alfaiate que mordia a fronha, uma casada que ciscava em outros galinheiros, um maluco festeiro, os vereadores sem salário que praticavam filantropia, uma parteira de todos, um jagunço valentão, uma pagador de promessa pelo filho adoentado, porém, não tinha político e nem empresário ladrão.

                                   Hoje, ao deparar-me com tanta corrupção de políticos, juízes e servidores públicos, por parte de empresários gananciosos, sinto uma vontade louca de retornar ao ventre da minha cidade natal, de onde não deveria ter saído nunca. Não sei se esse seres inescrupuloso tiveram os mesmos mestres que eu ou se frequentaram escolas semelhantes a minha. Se eles tiveram, o que duvido, creio que cabularam as aulas de “Organização Social e Política Brasileira” e, também, não foram alunos do professor Levi.

                                   Chama-me atenção, que os corruptos gozam de plena saúde, quando da prática criminosa. Não padecem de nenhuma doença terminal. Exibem uma disposição física e mental invejável, principalmente, para correrem atrás do patrimônio público. O sorriso estonteante dos corruptos cativa os menos desavisados. As regalias a eles deferidas saltam aos olhos de um povo sofrido e explorado.

                                   Mas quando, por ironia do destino, a justiça bate à porta, cobrando o que deles não era, lá se vão pelo ralo, o sorriso espontâneo e a saúde invejável. As doenças da desonra, há muito incubadas e os sorrisos de escárnios afloram repentinamente. Fazem uma encenação de vítimas e inocentes, tripudiando a lei. Brincam com a sabedoria do povo. Eles se escoram numa Suprema Corte apequenada diante do poder econômico, para se livrarem do cárcere.

                                   Quando vejo esses crápulas, socorrendo de um atestado médico, de uma bengala o de uma cadeira de rodas, para simularem insanidade mental ou incapacidade física para deporem ou serem encarcerados, chego a triste conclusão de que não são eles os doentes, mas, sim, a justiça. A nação há de compreender, que nossa Justiça está capenga.

Peruíbe SP, 31 de março de 2018

 

domingo, 25 de fevereiro de 2018

METÁSTASE


                                       Quando, pela primeira vez, sentei-me numa carteira escolar, nunca mais me apartei dos estudos e da busca incansável pelo desconhecido. O meu comportamento inquieto, foi sempre o diferencial entre eu e os colegas de carteira, do tempo em elas eram duplas. Não é exagero dizer, que sempre sentei na primeira fileira, para estar bem próximo do mestre e dele, degustar de todo seu conhecimento. Locupletar de toda sua sabedoria e experiência de vida.

                                   Essa ânsia pela cultura, tem-me custado horas de sofrimento e de depressão. Tenho me preocupado em demasia com a transitoriedade da vida e com a mudança de comportamento dos seres racionais, que infestam esse planeta. A terra agoniza e pede socorro, mas ninguém vê isso. A ganância desenfreada é um vírus letal, que infecta a alma humana e arrasta o corpo para o desterro do desconhecido.

                                   Esse vírus assexuado migrou para vários segmentos da sociedade e, através das artérias desprotegidas (ética e moral), infectou o corpo inteiro (país). Uma vez alastrada a doença, pouco há que se fazer. Os cientistas e médicos (políticos) buscam remédios paliativos, o que de nada adianta. Apenas maquiam a realidade e enganam os pacientes (povo) terminais.

                                   Na infância, aprendi que o mal se mata pela raiz. Ou ainda, que o tronco da árvore se conserta ainda novo, pois, depois de velho, não tem mais jeito. O vírus enraizado no homicídio, tráfico, roubo, furto, estupro, corrupção, lixo musical, prostituição eletrônica, apologia ao crime, dentre tantos outros males modernos, deveria ser extirpado em seu nascedouro. No entanto, sob o manto da tal democracia e do famigerado “direitos humanos”, fizeram-se vista grossa a essa doença devastadora.

                                   Há muitos anos, a realidade nua e crua, vem apontando as falhas no tratamento dos sintomas iniciais da doença chamada violência. Medidas ineficazes e remédios falsos colaboraram sobremaneira para que a infecção transformasse numa septicemia aguda, comprometendo todo o corpo (sociedade), da cabeça (norte) aos pés (sul). O médico (governo) tinha nas mãos o bisturi (solução) para cortar na carne, os males futuros. Não o fez por incompetência ou por interesses eleitorais.

                                   Agora que o corpo está em coma profundo, surgem medidas drásticas como que querendo salvar o que perdido está. E eu fico aqui de mãos atadas, engolindo seco o que a mídia manipuladora tenta dizer o que é certo. Vejo a sociedade seguindo por caminhos tortuosos, feito gado rumo ao matadouro. Por onde anda a esperança de dias melhores? A juventude dos “caras pintadas” está escondida no ostracismo e, por isso, prefere calar-se.

                                   Quando meus pais levaram-me para a escola, a fim de cumprirem o dever social da minha alfabetização, não imaginaram que me transformaria num cronista ou um contador de história. Bendita a hora que eu manuseei, pela primeira vez, a cartilha “Caminho Suave”. Ela foi a porta aberta para o conhecimento e os questionamentos das injustiças sociais. O gosto pela leitura fez de mim um devorador de livros e, por conseguinte, um pesquisador do desconhecido.

                                   Quanto à metástase, mencionada pelo governante maior, durante uma entrevista jornalística, resta apenas rogar a Deus por um milagre divino, a fim de curar o corpo doente.

Peruíbe SP, 25 de fevereiro de 2018.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A BUNDA QUE ABUNDA


                                  Podem me chamar de quadrado ou careta. Sou de um tempo que ainda manda flores. Não sou pré-histórico, apenas valorizo o passado. Tratar as pessoas mais velhas ou desconhecidas de “senhor” ou “senhora”, bem como, dizer “por favor” ou “muito obrigado”, sempre fez parte do meu verbete. Os progenitores, preocupados com o futuro e sabedores do mundo que eu iria enfrentar, prepararam-me para as grandes procelas da vida. Sabiam que eu teria que matar um leão por dia, para continuar sobrevivendo.

                                   Aprendi que um elo, ao unir ao outro e assim por diante, ao final, formam uma corrente. Basta um elo se romper e a corrente se desfaz. Por isso, procurei educar meus filhos, aos moldes antigos, a fim de que não se rompesse as tradições sociais e familiares. Minha prole tem um gosto refinado em tudo. O mais velho, adora música sertaneja raiz; o do meio, é devorador de livros e a caçula, preza a moral e os bons costumes. Por isso, o elo de minha família continua firme, indestrutível.

                                   Mas, ao abrir o leque da visão mundana, vejo uma sociedade arrastada por formadores de opinião, da pior extirpe. Lixos novelescos e prostitutas televisivas, ensinando o que há de mais nojento a uma juventude desvairada. O culto selvagem ao corpo e o linguajar chulo das mulheres de hoje, sepultaram a beleza singela, das moçoilas recatadas, de um tempo não muito distante. Deixaram de serem escravas de velhos costumes, para serem devoradas por um consumismo desenfreado.   

                                   Sou um grande admirador e defensor do sexo feminino. A mãe, irmãs, primas, sobrinhas e filhas, são provas de que minha vida não teria sentido, se elas não existissem no meu universo interior. Felicito-me em saber, que seguem princípios, escritos e desenhados pelos antecessores. Por outro lado, choro copiosamente, quando deparo com uma gama de mulheres, expondo o corpo, como se fosse peça de consumo, sem qualquer escrúpulo.

                                   Outro dia, uma fedelha, vestiu-se com roupas minúsculas, ao se preparar para uma festa. Deixou claro que saiu para ser caçada e não cortejada. Os seios e a polpa das nádegas, quase expostos, era o chamariz para atrair o macho e, consequentemente, ser devorada por ele. Dizem que quem gosta de passado é museu, mas reporto aos tempos de minha infância, na cidade natal. Era lindo ver as meninas faceiras, sendo cortejadas, enquanto desfilavam delicadamente, ao redor do chafariz ou do coreto, existente na praça matriz.

                                   Única arma usada para atrair o pretendente, era o charme no vestir e nos trejeitos de andar. A voz adocicada e palavras cuidadosamente escolhidas faziam delas verdadeiras joias a serem conquistadas e levadas ao altar. Hoje, em razão da desvalorização da moeda corrente (princípios femininos), se forem levadas ao motel, já está de bom tamanho. Depois de usadas e reusadas, nada mais servem. Quem faz do corpo o seu bem maior, um dia cai sua cotação na bolsa de valor, dos predadores de plantão. As ninfetas de hoje, querem apenas copular.

                                   Dói na alma e aperta o coração, ver a que ponto chegou o universo feminino, onde a vulgaridade impera soberana. Depois de se oferecerem a preço de banana, acusam os devoradores masculinos mais afoitos, de assédio ou de violência sexual. Cobram do macho, comportamento ético e moral esquecendo que, em momento algum da sua trajetória humana, buscou agir de forma digna e respeitosa.

                                   Ao invés de realçar as qualidades interiores, a mulher procurou valorizar os glúteos. Bunda para os íntimos. Para os que fazem apologia ao sexo, quanto mais bunda melhor. Creio que a anatomia do corpo feminino, não é composta apenas de peito, bunda, coxas e genitália. A beleza feminina transcende o imaginário físico. Valorizar a bunda é por demais mesquinhos. Se cobrarem por favores sexuais, são pagas por muito mais do que valem.

                                   A bunda que abunda, não enaltece; mas afunda a beleza feminina, na vala profunda da imoralidade.

Peruíbe SP, 13 de fevereiro de 2018.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

NOITES DE TORMENTA


                          Caia a tarde e a noite se avizinhava. As províncias e os vilarejos do “Reino Caiçara” preparavam-se para dormir. As ruas cobriam-se de silêncio e as aves recolhiam em seus ninhos, saudando o dia que se foi. Lá longe, podia-se divisar o rosto preguiçoso da lua, chegando mansa e sorrateira. A natureza pintava um quadro de ternura e paz. O vento dançava uma valsa suave, convidando os seres viventes a sonhar o sonho dos anjos. Tudo era belo, tudo era paz.

                                   E eu ali, debruçado na janela do tempo, contemplava a metamorfose daquela imagem, que me embriagava os olhos. Nem o mais renomado dos artistas, conseguiria retratar em tela, aquilo que minha retina gravava com tanta exatidão. A vida tem a cor que a nós pintamos. Percebi que o sol, já cansado e tímido, caminhava lentamente em direção ao arrebol. E para recebê-lo, o horizonte estendia um tapete lusco-fusco.  Uma aquarela estampada com maestria pelas mãos talentosas do universo.

                                   De repente, surgia uma nuvem aqui e acolá. Aos poucos iam se juntando e formando desenhos desconexos e eu, como na minha infância, procurava decifrá-los. Ora bichos... ora árvores... ora gente... ora seres indecifráveis. Não demorou muito e elas foram se tornando escuras e carregadas. Vi o reino fechar os olhos e se recolher de medo. Não se divisava mais o horizonte e nem o coaxar dos sapos martelos. Nenhum pio das aves, abrigadas entre os galhos frondosos da paineira velha.

                                   O vento forte chegou primeiro, para avisar que uma tempestade, estava a caminho. Não demorou muito, uma rajada de raios riscou o céu e o eco dos trovões, gritou noite adentro.  E eu, teimoso, continuava debruçado na janela do tempo. As primeiras gotas de chuva beijaram a minha face. Um beijo frio de arrepiar a epiderme e de trincar os ossos. Lá da cozinha, agarrada a um terço, minha mãe rezava uma oração repetitiva a Santa Bárbara. “Menino, corre e coloca um prato com água, açúcar e sal atrás da porta”, disse ela. Mãe apertava o terço ao peito. Atendi, é claro.

                                   Agarrei um ramo bento (de palmeira) e joguei pela janela. Dali observei, amedrontado, as águas subirem pelas ruas do reino, até onde minhas vistas alcançavam. Num piscar de olhos, a “Praça dos Três Poderes”, centro administrativo do “Reino Caiçara”, onde se localizava o Palácio Real, o Parlamento e a Suprema Corte estava toda ilhada. As ruas ao derredor tornaram intransitáveis, impedindo o tráfego das carruagens, cabriolés, carroças e charretes. Um cachorro magro e sarnento foi levado pela correnteza afora. Triste cena. A chuva torrencial apanhou todos de surpresa. Não se sabia o que era rua e o que era água.

                                   Um heroico jornalista, que transitava por ali, fazendo a voz do povo, gritava por responsabilidade dos administradores do reino e perguntava por onde estava o rei, bem como, o presidente do parlamento e o da suprema corte. Penso que, no que diz respeito ao abandono da urbe, a responsabilidade também se estende ao governados. Cuidar das cidades e dos vilarejos é um dever de todos nós. Os lixos jogados nas ruas e terrenos baldios e, ainda, a impermeabilidade do solo, são fatores preponderantes para as grandes inundações.

                                   A arquitetura do prédio que abrigava a Suprema Corte lembrava-me a arca de Noé. Veio à memória, aquele caixote de três andares, navegando à deriva, durante quarenta dias e quarenta noites. Numa tormenta sem fim, vi a terra virar mar e o mar virar solidão. Ironia do destino, a Suprema Corte há de navegar por anos e anos, por mares revoltos. Arrastará nessa sina, o Palácio Real e o Parlamento,      

                                   Da janela do tempo, observo a profecia sendo cumprida. Resta-me apenas olhar para o céu e pedir ao Criador que se abrevie as noites de tormenta.

 

Peruíbe SP, 31 de janeiro de 2018.

 

sábado, 27 de janeiro de 2018

SINAIS MILENARES


                                     Há seis mil anos, nascia na antiga Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque, a escrita. Os primeiros a se estabelecerem na região da mesopotâmia foram os Sumérios (aproximadamente 4 000 a.c). Foram eles os inventores da chamada escrita cuneiforme (escrita em forma de cunha). A partir de então, as pessoas comunicavam-se através de sinais escritos e, por conseguinte, a história da humanidade passou a ser registrada e documentada.

                                               Aos sete anos, descobri através da cartilha “Caminho Suave”, de Branca Alves de Lima, a beleza das primeiras letras e palavras. Aos poucos e com o carinho da professora Maria Aparecida Almada, isso no Grupo Escolar “José Belmiro Rocha”, em Guaimbê SP, fui construindo as primeiras frases. Bastou um caderno de caligrafia, um lápis, um apontador e uma borracha, para eu enveredar pelos caminhos da literatura. Como uma criança gatinhando, a mão foi se firmando até conquistar o mundo da cultura e do conhecimento.

                                               Penso na aventura e no prazer de meus antepassados, ao registrarem através da escrita, quer seja em papiro ou pergaminho, os seus sonhos amorosos ou seus projetos de futuro. A vida evoluiu na velocidade da luz ou do som, levando o homem a conquistar universos insondáveis. A ciência e a tecnologia encurtou distância entre o ontem e o amanhã. Mas, por outro lado, tornou as pessoas mais frias, além de dar a elas, um envelhecimento precoce. A evolução e o progresso cobrou um preço muito alto.

                                               A minha sede de conhecimento, levou-me a construir uma biblioteca particular em minha casa. É nela que busco afago, quando estou carente de resposta aos questionamentos das coisas da vida e do mundo. Ao abrir um livro, viajo pelos caminhos da imaginação, como se estivesse conduzindo uma nave interplanetária. Ali, na solidão do meu eu, saboreio cada palavra e frase, embriagado pela busca incansável do saber.

                                               Vem à minha mente, que o capiau da minha terra natal, que muitas vezes não tem o conhecimento da escrita, também faz a leitura da vida ao seu derredor, através de sinais. Sabe, como ninguém, observar os sinais da natureza. Sem se socorrer a qualquer aparelho de precisão, descreve o que o vento, o sol, a lua, o canto das aves, o barulho dos animais, estão dizendo sobre o tempo de chuva, tempestade, a vinda da seca, a época de plantio e assim por diante.

                                               O caipira, sem acesso à escrita e, portanto, sem decifrar um livro, ao deparar com sua cria doente, sabe dizer qual a planta certa para fazer um remédio e curar o enfermo. Estou certo de que os sinais, representados pela escrita, mudaram o mundo há mais de seis mil anos. Mas os sinais do espírito, da alma e do coração, deixados ao homem, pelo Criador do universo, jamais serão substituídos pela descoberta dos sumérios, lá da antiga mesopotâmia.

                                               Ao decifrar os primeiros sinais da escrita, isso no banco escolar, nas manhãs primaveris de minha terra natal, descobri a importância que o conhecimento pode proporcionar ao ser humano. O homem sem cultura, não passa de um animal arredio, fadado a carregar para o resto da vida, a carga pesada da ignorância. Assim sendo, penso de que nada valeu os esforços dos sumérios.

                                               De uma coisa estou certo: “A vida passa, mas os sinais milenares da escrita permanecem”.  

 

Peruíbe SP, 27 de janeiro de 2018.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CORPO CARCOMIDO


                                                 Nada mais justo e, também, mais cruel do que o tempo. Desde a tenra idade, tenho ouvido frases como: “Tudo no seu tempo, pois o tempo resolve tudo” ou “Tudo se corrói com o tempo”. A vida efêmera tornou-me uma pessoa cautelosa com relação aos conceitos e preconceitos, que adquirimos durante nossa estadia nesse planeta repleto de enigmas. Preocupa-me em demasia, sabermos que estamos aqui de passagem e que tudo não passa de quimera.

                                   Nas minhas dissertações literárias e nas divagações filosóficas, sempre fui transparente sobre a transitoriedade da vida. Há os que se vangloriam da beleza física ou dos saldos bancários, como se tudo fosse eterno. Para mim, nada é eterno, nem mesmo a própria eternidade. Ao compreender a fragilidade da nossa existência, passei a aceitar com naturalidade os desígnios do Criador.

                                   Diante disso, revolta-me ver toda cena desumana, representada pela violência desenfreada, quer seja contra pessoas, animais ou a natureza. O desrespeito aos idosos e a exploração de menores, a inversão de valores éticos e morais, o enriquecimento ilícito à custa da miséria do povo, a incitação ao crime e ao sexo liberal, dentre outras coisas, traduzem a degradação humana. Estamos à beira do abismo da derrocada existencial. O mundo grita desesperado, em busca de salvação.

                                   O que se espera de uma geração criado no berço do desamor, do desrespeito e da ausência de moral? Uma juventude que cultua a apologia ao crime e ao sexo livre, não está apta a governar o mundo. A religião que faz da fé um balcão de negócios e a política fertilizada pelo esterco da corrupção transformam uma nação num esgoto de sujeira a céu aberto. Um sistema de ensino que deseduca os embriões de uma sociedade futura, muito me preocupa e me causa agonia. Mulheres que expõem e oferecem o corpo à melhor oferta financeira. Não vejo com bons olhos, o amanhã que desponta além do horizonte.

                                   Moro num reino, denominado “Reino Caiçara”. Digo que para conhecer o mundo, não precisa sair de casa, pois a sua casa é uma réplica do mundo. Da janela do meu reino, contemplo todos os reinos distantes, aqui e além mar. Os flagelos do meu reino são os mesmos de todos os outros reinos. Padecemos de todos os pecados, angústias, revoltas, desejos de prosperidades e de justiça social. Como em todos os outros reinos, gritamos por toda sorte de melhorias. Desenhamos um castelo de sonhos!

                                   Por mais que eu me embriago com o cálice de otimismo, não consigo acordar sem a ressaca da decepção, gerada pelo abandono dos governantes contra os seus governados. Triste saber que a miséria de muitos, acabam beneficiando os poucos (mandatários), donos do poder econômico. É assim desde o início da humanidade, desde os primórdios tempos da criação. A ganância levou a um confronto entre os irmãos Caim e Abel. Hoje, a corrupção é a versão moderna dos confrontos bíblicos, que levam as pessoas a se digladiarem entre si.

                                   Estamos vivendo um tempo, em que o corpo chamado sociedade, está carcomido pelos males de uma moral desajustada, a qual navega a deriva num mar de lama. Assim sendo, o corpo carcomido vai se desfazendo aos poucos, até desaparecer, sem deixar rastro e, muito menos saudade.

 
Peruíbe SP, 18 de janeiro de 2018