segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A BUNDA QUE ABUNDA


                                  Podem me chamar de quadrado ou careta. Sou de um tempo que ainda manda flores. Não sou pré-histórico, apenas valorizo o passado. Tratar as pessoas mais velhas ou desconhecidas de “senhor” ou “senhora”, bem como, dizer “por favor” ou “muito obrigado”, sempre fez parte do meu verbete. Os progenitores, preocupados com o futuro e sabedores do mundo que eu iria enfrentar, prepararam-me para as grandes procelas da vida. Sabiam que eu teria que matar um leão por dia, para continuar sobrevivendo.

                                   Aprendi que um elo, ao unir ao outro e assim por diante, ao final, formam uma corrente. Basta um elo se romper e a corrente se desfaz. Por isso, procurei educar meus filhos, aos moldes antigos, a fim de que não se rompesse as tradições sociais e familiares. Minha prole tem um gosto refinado em tudo. O mais velho, adora música sertaneja raiz; o do meio, é devorador de livros e a caçula, preza a moral e os bons costumes. Por isso, o elo de minha família continua firme, indestrutível.

                                   Mas, ao abrir o leque da visão mundana, vejo uma sociedade arrastada por formadores de opinião, da pior extirpe. Lixos novelescos e prostitutas televisivas, ensinando o que há de mais nojento a uma juventude desvairada. O culto selvagem ao corpo e o linguajar chulo das mulheres de hoje, sepultaram a beleza singela, das moçoilas recatadas, de um tempo não muito distante. Deixaram de serem escravas de velhos costumes, para serem devoradas por um consumismo desenfreado.   

                                   Sou um grande admirador e defensor do sexo feminino. A mãe, irmãs, primas, sobrinhas e filhas, são provas de que minha vida não teria sentido, se elas não existissem no meu universo interior. Felicito-me em saber, que seguem princípios, escritos e desenhados pelos antecessores. Por outro lado, choro copiosamente, quando deparo com uma gama de mulheres, expondo o corpo, como se fosse peça de consumo, sem qualquer escrúpulo.

                                   Outro dia, uma fedelha, vestiu-se com roupas minúsculas, ao se preparar para uma festa. Deixou claro que saiu para ser caçada e não cortejada. Os seios e a polpa das nádegas, quase expostos, era o chamariz para atrair o macho e, consequentemente, ser devorada por ele. Dizem que quem gosta de passado é museu, mas reporto aos tempos de minha infância, na cidade natal. Era lindo ver as meninas faceiras, sendo cortejadas, enquanto desfilavam delicadamente, ao redor do chafariz ou do coreto, existente na praça matriz.

                                   Única arma usada para atrair o pretendente, era o charme no vestir e nos trejeitos de andar. A voz adocicada e palavras cuidadosamente escolhidas faziam delas verdadeiras joias a serem conquistadas e levadas ao altar. Hoje, em razão da desvalorização da moeda corrente (princípios femininos), se forem levadas ao motel, já está de bom tamanho. Depois de usadas e reusadas, nada mais servem. Quem faz do corpo o seu bem maior, um dia cai sua cotação na bolsa de valor, dos predadores de plantão. As ninfetas de hoje, querem apenas copular.

                                   Dói na alma e aperta o coração, ver a que ponto chegou o universo feminino, onde a vulgaridade impera soberana. Depois de se oferecerem a preço de banana, acusam os devoradores masculinos mais afoitos, de assédio ou de violência sexual. Cobram do macho, comportamento ético e moral esquecendo que, em momento algum da sua trajetória humana, buscou agir de forma digna e respeitosa.

                                   Ao invés de realçar as qualidades interiores, a mulher procurou valorizar os glúteos. Bunda para os íntimos. Para os que fazem apologia ao sexo, quanto mais bunda melhor. Creio que a anatomia do corpo feminino, não é composta apenas de peito, bunda, coxas e genitália. A beleza feminina transcende o imaginário físico. Valorizar a bunda é por demais mesquinhos. Se cobrarem por favores sexuais, são pagas por muito mais do que valem.

                                   A bunda que abunda, não enaltece; mas afunda a beleza feminina, na vala profunda da imoralidade.

Peruíbe SP, 13 de fevereiro de 2018.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

NOITES DE TORMENTA


                          Caia a tarde e a noite se avizinhava. As províncias e os vilarejos do “Reino Caiçara” preparavam-se para dormir. As ruas cobriam-se de silêncio e as aves recolhiam em seus ninhos, saudando o dia que se foi. Lá longe, podia-se divisar o rosto preguiçoso da lua, chegando mansa e sorrateira. A natureza pintava um quadro de ternura e paz. O vento dançava uma valsa suave, convidando os seres viventes a sonhar o sonho dos anjos. Tudo era belo, tudo era paz.

                                   E eu ali, debruçado na janela do tempo, contemplava a metamorfose daquela imagem, que me embriagava os olhos. Nem o mais renomado dos artistas, conseguiria retratar em tela, aquilo que minha retina gravava com tanta exatidão. A vida tem a cor que a nós pintamos. Percebi que o sol, já cansado e tímido, caminhava lentamente em direção ao arrebol. E para recebê-lo, o horizonte estendia um tapete lusco-fusco.  Uma aquarela estampada com maestria pelas mãos talentosas do universo.

                                   De repente, surgia uma nuvem aqui e acolá. Aos poucos iam se juntando e formando desenhos desconexos e eu, como na minha infância, procurava decifrá-los. Ora bichos... ora árvores... ora gente... ora seres indecifráveis. Não demorou muito e elas foram se tornando escuras e carregadas. Vi o reino fechar os olhos e se recolher de medo. Não se divisava mais o horizonte e nem o coaxar dos sapos martelos. Nenhum pio das aves, abrigadas entre os galhos frondosos da paineira velha.

                                   O vento forte chegou primeiro, para avisar que uma tempestade, estava a caminho. Não demorou muito, uma rajada de raios riscou o céu e o eco dos trovões, gritou noite adentro.  E eu, teimoso, continuava debruçado na janela do tempo. As primeiras gotas de chuva beijaram a minha face. Um beijo frio de arrepiar a epiderme e de trincar os ossos. Lá da cozinha, agarrada a um terço, minha mãe rezava uma oração repetitiva a Santa Bárbara. “Menino, corre e coloca um prato com água, açúcar e sal atrás da porta”, disse ela. Mãe apertava o terço ao peito. Atendi, é claro.

                                   Agarrei um ramo bento (de palmeira) e joguei pela janela. Dali observei, amedrontado, as águas subirem pelas ruas do reino, até onde minhas vistas alcançavam. Num piscar de olhos, a “Praça dos Três Poderes”, centro administrativo do “Reino Caiçara”, onde se localizava o Palácio Real, o Parlamento e a Suprema Corte estava toda ilhada. As ruas ao derredor tornaram intransitáveis, impedindo o tráfego das carruagens, cabriolés, carroças e charretes. Um cachorro magro e sarnento foi levado pela correnteza afora. Triste cena. A chuva torrencial apanhou todos de surpresa. Não se sabia o que era rua e o que era água.

                                   Um heroico jornalista, que transitava por ali, fazendo a voz do povo, gritava por responsabilidade dos administradores do reino e perguntava por onde estava o rei, bem como, o presidente do parlamento e o da suprema corte. Penso que, no que diz respeito ao abandono da urbe, a responsabilidade também se estende ao governados. Cuidar das cidades e dos vilarejos é um dever de todos nós. Os lixos jogados nas ruas e terrenos baldios e, ainda, a impermeabilidade do solo, são fatores preponderantes para as grandes inundações.

                                   A arquitetura do prédio que abrigava a Suprema Corte lembrava-me a arca de Noé. Veio à memória, aquele caixote de três andares, navegando à deriva, durante quarenta dias e quarenta noites. Numa tormenta sem fim, vi a terra virar mar e o mar virar solidão. Ironia do destino, a Suprema Corte há de navegar por anos e anos, por mares revoltos. Arrastará nessa sina, o Palácio Real e o Parlamento,      

                                   Da janela do tempo, observo a profecia sendo cumprida. Resta-me apenas olhar para o céu e pedir ao Criador que se abrevie as noites de tormenta.

 

Peruíbe SP, 31 de janeiro de 2018.

 

sábado, 27 de janeiro de 2018

SINAIS MILENARES


                                     Há seis mil anos, nascia na antiga Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque, a escrita. Os primeiros a se estabelecerem na região da mesopotâmia foram os Sumérios (aproximadamente 4 000 a.c). Foram eles os inventores da chamada escrita cuneiforme (escrita em forma de cunha). A partir de então, as pessoas comunicavam-se através de sinais escritos e, por conseguinte, a história da humanidade passou a ser registrada e documentada.

                                               Aos sete anos, descobri através da cartilha “Caminho Suave”, de Branca Alves de Lima, a beleza das primeiras letras e palavras. Aos poucos e com o carinho da professora Maria Aparecida Almada, isso no Grupo Escolar “José Belmiro Rocha”, em Guaimbê SP, fui construindo as primeiras frases. Bastou um caderno de caligrafia, um lápis, um apontador e uma borracha, para eu enveredar pelos caminhos da literatura. Como uma criança gatinhando, a mão foi se firmando até conquistar o mundo da cultura e do conhecimento.

                                               Penso na aventura e no prazer de meus antepassados, ao registrarem através da escrita, quer seja em papiro ou pergaminho, os seus sonhos amorosos ou seus projetos de futuro. A vida evoluiu na velocidade da luz ou do som, levando o homem a conquistar universos insondáveis. A ciência e a tecnologia encurtou distância entre o ontem e o amanhã. Mas, por outro lado, tornou as pessoas mais frias, além de dar a elas, um envelhecimento precoce. A evolução e o progresso cobrou um preço muito alto.

                                               A minha sede de conhecimento, levou-me a construir uma biblioteca particular em minha casa. É nela que busco afago, quando estou carente de resposta aos questionamentos das coisas da vida e do mundo. Ao abrir um livro, viajo pelos caminhos da imaginação, como se estivesse conduzindo uma nave interplanetária. Ali, na solidão do meu eu, saboreio cada palavra e frase, embriagado pela busca incansável do saber.

                                               Vem à minha mente, que o capiau da minha terra natal, que muitas vezes não tem o conhecimento da escrita, também faz a leitura da vida ao seu derredor, através de sinais. Sabe, como ninguém, observar os sinais da natureza. Sem se socorrer a qualquer aparelho de precisão, descreve o que o vento, o sol, a lua, o canto das aves, o barulho dos animais, estão dizendo sobre o tempo de chuva, tempestade, a vinda da seca, a época de plantio e assim por diante.

                                               O caipira, sem acesso à escrita e, portanto, sem decifrar um livro, ao deparar com sua cria doente, sabe dizer qual a planta certa para fazer um remédio e curar o enfermo. Estou certo de que os sinais, representados pela escrita, mudaram o mundo há mais de seis mil anos. Mas os sinais do espírito, da alma e do coração, deixados ao homem, pelo Criador do universo, jamais serão substituídos pela descoberta dos sumérios, lá da antiga mesopotâmia.

                                               Ao decifrar os primeiros sinais da escrita, isso no banco escolar, nas manhãs primaveris de minha terra natal, descobri a importância que o conhecimento pode proporcionar ao ser humano. O homem sem cultura, não passa de um animal arredio, fadado a carregar para o resto da vida, a carga pesada da ignorância. Assim sendo, penso de que nada valeu os esforços dos sumérios.

                                               De uma coisa estou certo: “A vida passa, mas os sinais milenares da escrita permanecem”.  

 

Peruíbe SP, 27 de janeiro de 2018.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CORPO CARCOMIDO


                                                 Nada mais justo e, também, mais cruel do que o tempo. Desde a tenra idade, tenho ouvido frases como: “Tudo no seu tempo, pois o tempo resolve tudo” ou “Tudo se corrói com o tempo”. A vida efêmera tornou-me uma pessoa cautelosa com relação aos conceitos e preconceitos, que adquirimos durante nossa estadia nesse planeta repleto de enigmas. Preocupa-me em demasia, sabermos que estamos aqui de passagem e que tudo não passa de quimera.

                                   Nas minhas dissertações literárias e nas divagações filosóficas, sempre fui transparente sobre a transitoriedade da vida. Há os que se vangloriam da beleza física ou dos saldos bancários, como se tudo fosse eterno. Para mim, nada é eterno, nem mesmo a própria eternidade. Ao compreender a fragilidade da nossa existência, passei a aceitar com naturalidade os desígnios do Criador.

                                   Diante disso, revolta-me ver toda cena desumana, representada pela violência desenfreada, quer seja contra pessoas, animais ou a natureza. O desrespeito aos idosos e a exploração de menores, a inversão de valores éticos e morais, o enriquecimento ilícito à custa da miséria do povo, a incitação ao crime e ao sexo liberal, dentre outras coisas, traduzem a degradação humana. Estamos à beira do abismo da derrocada existencial. O mundo grita desesperado, em busca de salvação.

                                   O que se espera de uma geração criado no berço do desamor, do desrespeito e da ausência de moral? Uma juventude que cultua a apologia ao crime e ao sexo livre, não está apta a governar o mundo. A religião que faz da fé um balcão de negócios e a política fertilizada pelo esterco da corrupção transformam uma nação num esgoto de sujeira a céu aberto. Um sistema de ensino que deseduca os embriões de uma sociedade futura, muito me preocupa e me causa agonia. Mulheres que expõem e oferecem o corpo à melhor oferta financeira. Não vejo com bons olhos, o amanhã que desponta além do horizonte.

                                   Moro num reino, denominado “Reino Caiçara”. Digo que para conhecer o mundo, não precisa sair de casa, pois a sua casa é uma réplica do mundo. Da janela do meu reino, contemplo todos os reinos distantes, aqui e além mar. Os flagelos do meu reino são os mesmos de todos os outros reinos. Padecemos de todos os pecados, angústias, revoltas, desejos de prosperidades e de justiça social. Como em todos os outros reinos, gritamos por toda sorte de melhorias. Desenhamos um castelo de sonhos!

                                   Por mais que eu me embriago com o cálice de otimismo, não consigo acordar sem a ressaca da decepção, gerada pelo abandono dos governantes contra os seus governados. Triste saber que a miséria de muitos, acabam beneficiando os poucos (mandatários), donos do poder econômico. É assim desde o início da humanidade, desde os primórdios tempos da criação. A ganância levou a um confronto entre os irmãos Caim e Abel. Hoje, a corrupção é a versão moderna dos confrontos bíblicos, que levam as pessoas a se digladiarem entre si.

                                   Estamos vivendo um tempo, em que o corpo chamado sociedade, está carcomido pelos males de uma moral desajustada, a qual navega a deriva num mar de lama. Assim sendo, o corpo carcomido vai se desfazendo aos poucos, até desaparecer, sem deixar rastro e, muito menos saudade.

 
Peruíbe SP, 18 de janeiro de 2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

FAROESTE TUPINIQUIM


                                     Quando meu pai comprou a primeira televisão, ainda com imagem preta e branca, da marca Telefunken, tornei um assíduo telespectador de filmes e de desenhos animados. Ao término da aula, corria desesperadamente para casa, almoçava as pressas, ou melhor, engolia sem mastigar, tudo isso para postar-me diante da telinha. Ali eu permanecia horas e horas, encantado com o mundo surreal. E, por ser criança, transportava para o meu mundo infantil, cenas retratadas nas histórias televisivas. Sentia-me um herói, pelas ruas da cidade da minha infância.

                                   Lembro com saudade das séries: Daktari, Zorro, Tarzan, Daniel Boone, Paladino Justiceiro, Hawai 5.0, Kung-Fu, dentre tantos outros. Adorava os filmes de faroeste e, por isso, sinto saudade de atores, como Lee Van Cleef, Rock Hudson, Glenn Ford, Vincent Price, Charles Bronson, Gregory Peck, Giuliano Gema e outras tantas feras da dramaturgia. Eu vibrava com a valentia, coragem e determinação dos desbravadores e justiceiros do velho oeste. Queria ser um deles e sonhava fazer justiça, para tornar o mundo mais humano.

                                   Já radicado há algum tempo aqui, no “Reino Caiçara”, sinto-me como se estivesse no velho oeste do meu imaginário infantil. Há uma verossimilhança entre o meu imaginário infantil e o mundo real do “Reino Caiçara”. As injustiças sociais, o desrespeito à natureza, a briga pelo poder, a violência gratuita, a falta de ética e moral na lida cotidiana, traduzem o que digo. Nesse momento, sinto desejo em ser um herói justiceiro, o qual, armado até os dentes, lutaria contra tudo e todos, a fim de restabelecer a paz e a igualdade entre as pessoas. Assim, faria do “Reino Caiçara” um “Reino Encantado”.

                                   Andando para lá e para cá, vejo pessoas transitando pela praia, atrelados aos seus cães e gatos, os quais defecam e urinam descontraidamente na areia. Lixos fétidos, espalhados pelas ruas e praças. No interior do comércio, homens e mulheres trajando minúsculas roupas de banho e, por isso, praticamente seminus. Sons estridentes no interior das residências, com músicas fazendo apologia ao crime e ao sexo animal. Desrespeito às regras de trânsito, como se as ruas fossem pistas de automobilismo. Crianças e adolescentes, ingerindo indiscriminadamente bebida alcoólica, diante dos olhos dos pais ou responsáveis.   

                                   Essas cenas dantescas reportam ao velho oeste, onde tudo parecia lícito, desde a disputa por terras até as mortes violentas, atingindo crianças, mulheres e idosos. Esta monarquia, assim como aquelas terras de ninguém, clama por heróis fortes e destemidos. Tenho vontade de montar a cavalo e sair galopando por ai, desafiando os fora-da-lei. Empunhado uma espada, um Colt 45 ou um Winchester 73, hei de vencer e restabelecer a ordem e a paz, nos condados do “Reino Caiçara”. Quando do meu passamento, após devolver a harmonia entre as pessoas, não quero um busto cravado em praça pública. Quero apenas descansar o sono dos anjos, na morada derradeira.

                                   Essa minha inquietação, diante das injustiças sociais, tortura-me aos poucos. Queria ser como os heróis da telinha, os quais, após restabeleceram a ordem e a lei, partiam em busca de novos desafios. Vejo que eram tão inquietos, assim como eu. Tinham sede e fome de justiça. Se eles saíssem da telinha e vissem passear pelo “Reino Caiçara”, eu me atrelava a eles. Os desordeiros de plantão iriam ver a bala tremer e o chicote estalar.

                                   Os forasteiros, vindos dos mais longínquos rincões, que pensam e que desejam fazer daqui um lugar para descarregarem suas frustações, irão pensar duas vezes, antes de virem para cá.  Hão de entender que aqui é um lugar de lazer e não uma terra sem lei. Defenderemos com unhas e dentes, nossa natureza exuberante, nossas praias encantadoras, nossas velhas tradições, bem como, nossos princípios éticos e morais.

                                   Os forasteiros (turistas) de primeira viagem recordarão amargamente do nosso “Faroeste Tupiniquim”.  The End.

 
Peruíbe SP, 04 de janeiro de 2018

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O REI É REAL


                    Nada mais belo e comovente, do que as comemorações de final de ano. As questiúnculas entre pessoas pobres de espírito e outros tantos sentimentos nascidos da ganância, desaparecem por um tempo. As querelas, filhas prematuras do ódio, dão lugar ao perdão, conquistado à custa de muitos presentes e mesas fartas. Por esse fato, ao iniciar o ano, a guerra pela sobrevivência e pelo poder, volta com força total. Os seres humanos reincorporam o seu estado natural, isto é, animalesco. E as desavenças continuam.

                            Nessa época, a cidade veste-se de cores reluzentes, dando um brilho diferente as ruas, becos, ladeiras e praças. O comércio, tentando recuperar o período das vacas magras, oferece os mais diversos produtos, vendendo-os a preço de ouro. Nas cidades turísticas e litorâneas, faltam de tudo, no que diz respeito à infraestrutura. As datas comemorativas coincidem com o período do verão estarrecedor. Essa junção é a química perfeita para o desassossego da população, quer seja ela, flutuante ou não.

                            Foi num dia desses, para fugir da clausura, que resolvi dar uma volta pelo centro da cidade. Embora não seja adepto de agitações e aglomerações, acabei absolvendo aquele clima festivo. Enquanto caminhava, observava tudo à minha volta. Desde a infância, sempre tive um olhar de lince, o que me custou horas de intensa alegria ou de agonia. Por outro lado, com esse dom, colhi fragmentos para adornar meus contos e crônicas da vida cotidiana.

                            Numa dessas andanças descompromissadas com o mundo, fui agraciado com a presença descontraída de vossa majestade, o Rei Fabrício, no meio da multidão. Desprovido da coroa dourada e cravejada de pedras preciosas, do cetro e da roupa branca, sob uma manta com as cores da bandeira, lá estava ele. Por alguns momentos, se fez povo e, por isso, fora reconhecido somente por alguns dos seus súditos.

                            O rei estava ladeado pelo Comandante Geral do Exército do “Reino Caiçara”, o tenente-coronel Sutra. Soldados da Guarda Real protegiam o rei. Notei que ele estava descontraído e sorria para aqueles que o reconheciam e o saldavam. Não havia paparazzi, nem fotógrafo e nem uma blogueira que vivia infernizando a monarquia. Ninguém mais da realeza estava ali. Nem mesmo o primeiro escalão ou os asseclas e  bajuladores o importunavam. Penso que ao sair do Palácio Caiçara, vestindo-se de cidadão comum, ele poderia viver um momento de povo. Era muito bom, sentir o cheiro dos governados. Esse era o espírito daquelas datas comemorativas.

                            Desde que o Rei Fabrício ascendeu ao trono real, com a queda daquela rainha incompetente e insana, eu tinha o sonho de conhecê-lo pessoalmente. Por diversas vezes, pedi aos seus assessores mais próximos, inclusive, aos seus aduladores, que me proporcionasse o encontro. Blindaram o rei e, por isso, todo esforço foi em vão. O rei continuava intocável, como aquela rainha que entrou para o desterro do esquecimento. Por isso, acreditava que o rei era apenas um conto escrito por um literato sonhador.

                            Mas, naquele dia, por força do destino ou do acaso, recebi o presente tão esperado e passei a acreditar que o rei não era uma lenda, mas, sim, que ele existia em carne e osso. O Rei era real.

 

Peruíbe SP, 02 de janeiro de 2018.

                           

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

NATAL ÁS AVESSAS ou A ARTE DE ILUDIR


                                    A arte é feita para ser contemplada. Seja a literatura, pintura, música, escultura e outras tantas. As longas horas de concepção do artista e a dor do parto, no momento de vê-la pronta e entregue ao mundo, devem ser respeitadas por todos. Só eu sei o flagelo de vê-la brotar em nossa mente, passando pelo processo da criação, até ganhar forma e sair por aí, embelezando esse mundo tão frio e carente de sentimentos. Não se criam artistas em laboratório, pois, quem é, já nasce pronto. O artista, por si só, é uma obra imortal do Grande Arquiteto do Universo.

                                   Nas minhas divagações, caminhando pelas ruas e praças do “Reino Caiçara”, deparei com algo que me chamou a atenção. Por vários dias, aquela cena dantesca, torturou meu cérebro. E como ser pensante, após analisar criteriosamente cada detalhe do que ali se expunha, passei a fazer perguntas a mim mesmo. O que move o mundo, não são as respostas, mas, sim as perguntas. As grandes descobertas, científicas ou não, nasceram das perguntas de seus criadores.

                                   Lembro que se avizinhavam datas festivas e as cidades do reino se vestiam de luzes e cores cintilantes, embriagando-se numa alegria incontrolável. O ar exalava prazer e as noites dormiam embaladas em sonhos de luxuria e consumismo. Mas eu ali, sentado num canto qualquer da praça, observava tudo com calma e esmero. O povo alvoroçado, num corre-corre desenfreado, não se atinha aos detalhes à sua volta. Crianças mimadas e manhosas queriam apenas deliciar das guloseimas expostas aqui e acolá, em barracas improvisadas.

                                   Na praça matriz do reino, havia esculturas disformes. Em que pese o esforço de quem as esculpiu, visando representar o natal, causavam espanto às crianças e olhar de repúdio aos adultos. Por alguns instantes, senti-me como se estivesse num reino distante, conhecido como “Reino de Itu”. As expressões faciais eram de filmes de terror hollydianos. Tenho para mim, que o natal se traduz em paz, ternura e alegria, portanto, aquelas esculturas, não representavam o natal da minha infância.

                                   Num canto qualquer daquela praça, havia uma singela manjedoura, desprovida de beleza e alegria. Notei de pronto, que Jesuscristinho ali não se encontrava. Procurei-o desesperadamente pelos arredores, mas não o encontrei. Perguntei aos transeuntes, mas, apressados com seus afazeres, não me deram atenção. Alguns chegaram a me perguntar: “Quem é Jesuscristinho?”. Emendei: “É o aniversariante do mês”. Retrucaram: “Não conheço, nunca ouvi falar”.

                                   Mas o que me causou maior espanto, não foi o que ali estava exposto, mas, sim, o que se pagou pelo conjunto da obra. Comenta-se de boca em boca, que o reino pagou oitenta mil patacas, em moeda corrente. Não se conhece o idealizador e nem de onde veio. Sabe-se apenas que foram restauradas, já no espaço aéreo do “Reino Caiçara”. O que se vê então, não foi só a arte de esculpir, mas, também, a arte de enganar e de iludir o povo. Um povo que nunca teve olhar clínico pela arte e, muito menos, pelo que acontece ao seu derredor.

                                   Os governantes e seus asseclas tem por mania, transformar as pessoas em marionetes. Através da arte do ilusionismo, o reino hipnotiza os súditos e os vassalos, adoçando seus lábios e ofuscando suas visões. Vendem sonhos de tempos melhores e embriagam os corações com falsas promessas. Aproveitam datas festivas, como o natal e o carnaval, para surrupiaram os cofres públicos. Dão com a mão direita e retiram com a esquerda.

                                   Já meio cabisbaixo, ao deixar aquela praça, olhando as expressões desfiguradas daquelas esculturas, pude entender a ausência sagrada do meu Jesuscristinho. Penso que assim, como as mortais crianças, ele ficou com medo daquilo que estava à sua volta. Ou então, sentiu-se horrorizado com os valores pagos àquela obra artística.

                                   Tenho saudade do natal da minha infância, o qual era revestido de beleza e de ternura. A ilusão ficava por conta da nossa imaginação. Não era permitido que os monstros criados pelos adultos, assombrassem a nossa mente.


Peruíbe SP, 18 de dezembro de 2017.